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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A MULHER EM PROUST







A MULHER EM PROUST
(Notas de Leitura)

por

Jacob (J.) Lumier

Uma mulher e o mar. Visão e tragédia de Albertine Ensaio minúsculo sobre as cinco cenas figurativas em que a mulher adquira figura literária trágica como objeto do desejo na arte romanesca de Marcel Proust.

Cena 1: Cena do primeiro contato no balneário de Balbec - a multiplicidade pictórica de Albertine convertendo-se em uma multiplicidade plástica. A visão de Albertine antes e depois do primeiro contato se altera muito mais do que um simples efeito do ângulo de enfoque do observador, desembocando em um tumulto de contradições objetivas e imanentes sobre as quais o sujeito (narrador proustiano) carece de controle. O narrador vê Albertine pela primeira vez incorporada ao brilho do pequeno bando de moças em bicicletas contrastadas pelo mar. Grupo pictórico este que, em sua adoração invejosa, o narrador simbolizará nas Bacantes. Albertine lhe parece carecer de individualidade e, nessa imaginação pictórica, está como envolta em um casulo: “uma crisálida delicada e quase abstrata” em tal modo que “só o mistério do bando orgiástico de Bacantes” envolvendo-a num “cerco de rosas que rompe as linhas das ondas” é a única imagem válida e que permanecerá nas referências posteriores do narrador.

Cena 2: Em outro dia ela o fita na praia. Frase desse relato retrospectivo escrita pelo narrador então já fascinado pelo desejo de possuí-la e pressentindo a impossibilidade desse sentimento: “soube que não possuiria a jovem ciclista se não conseguisse possuir o que havia em seus olhos” - ele ainda não consegue vê-la dissociada do mistério das bacantes em bicicleta.

Cena 3: O contato com ela lhe é proporcionado pelo pintor Elstir que lha apresenta, e ele “começa a conhecê-la através de uma série de subterfúgios” em que cada fragmento de sua fantasia e seu desejo é substituído por um conceito bastante menos preciso. Criar-se-á então a Albertine da multiplicidade plástica, cujas expressões são equiparáveis a um caleidoscópio. Empenha-se em observá-la em todas as oportunidades. Observa-a nas relações dela com Mme. Bontemps; nas primeiras ambigüidades entre ele e ela; no reflexo de um luar em seu queixo; na maneira em que emprega o advérbio ‘perfeitamente’ no lugar de ‘inteiramente’; na inflamação no canto de seu olho interferindo nas suas feições e, dessas observações, encontra a aparência dela como a passar da superfície mansa e polida a “um estado quase fluido de alegria translúcida, uma congestão febril”. Quando ousou seu primeiro gesto impreciso de aproximação é repelido com frieza, levando-o a concluir que, em modo contrário à sua fantasiosa hipótese inicial de ser ela a possível amante de um corredor ciclista ou de um campeão de box, Albertine era honesta e fora falsa sua apreciação sobre o caráter dela.


Cena 4: Todavia essa impressão cambiará. A tragédia de Albertine se complica alterando o estado do narrador nas relações entre ele e ela em Paris, marcado por certa perplexidade em face da própria incapacidade dele para encontrar um denominador comum interligando a nova Albertine ou a nova multiplicidade dessa nova Albertine agora tomada em seus braços. A configuração poética já não tem apenas uma base visual, fosse pictórica ou plástica. O objeto do desejo que ela parece simbolizar, a mulher e o mar, acentuando no plano espiritual o prazer desfrutado dos favores dela, sofisticada, para ele já iniciada, esse objeto ou esse composto, através do hábito dela, leva a formar um segundo composto, desta vez com os ciúmes. De fato, a simbolização de Balbec e seu mar através do hábito de Albertine vem a ser restituída como amálgama do humano e do marinho em um estímulo do coração exatamente através dos ciúmes. A visão de Albertine espantando o narrador e escapando a toda a composição de unidade mostra não só a Albertine de sua imaginação, a apaixonada e irreal da praia; a Albertine real e virginal aparentemente, revelada a ele no final de sua estadia em Balbec; Mas também lhe mostra esta terceira Albertine que, no dizer de Beckett, “cumpre a promessa da primeira na realidade da segunda”.


Cena 5: Mas essa nova Albertine é múltipla e o narrador vê claramente a dificuldade em viver com ela, melhor: vê a ameaça aos seus sentimentos. Tanto que, depois de sua primeira visita à Princesa de Guermantes, quando sentado em seu quarto esperando-a que não chega, sente como esta “não chegada” exalta uma simples irritação física convertendo-se em chama de angústia espiritual. Muito mais que o ouvido ou a mente, o narrador é todo o coração ao atentar para os passos dela ou para a chamada sublime do telefone. Destaca-se ainda a necessidade, a carência com que o narrador relacionou o consolo outrora obtido pelo carinho de sua mãe à esperada chegada de Albertine, causando-lhe ademais uma inquietação suplementar a consciência de haver visto nesta Albertine comum “uma fonte de consolo e salvação que milagre algum poderia substituir”. Tal a impressão da impossibilidade em possuir o outro que então o narrador formula na seguinte frase: “só se ama aquilo que não se possui, só se ama aquilo no qual se busca o inacessível”. Será a este e a outros semelhantes pensamentos do narrador que, como veremos, Beckett se refere ao afirmar que... Em Proust, o amor é uma função da tristeza, comportando o sentimento de que nessa matéria não há escolha ruim, posto que o fato mesmo de que tenha havido uma escolha implica que tenha sido ruim!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

PROUST E OS ROMÂNTICOS





Fragmento do e-book "SOCIOLOGIA DA LITERATURA – I: LEITURA DE PROUST: UMA ABORDAGEM INSPIRADA POR SAMUEL BECKETT"

http://jl-praxis.blogspot.com/2008/02/sociologia-da-literatura-i-leitura-de.html


(...) Já mencionamos que Proust é demasiado efetivista e que se essa orientação o aproxima de Dostoyevski, não só o diferencia do simbolismo mais intelectual de um Baudelaire abstrato e discursivo, mas o levará a uma posição solitária e independente entre os simbolistas.

Beckett põe em relevo que o tratamento praticado por Proust do simbolismo como realidade exclui sua utilização como “mera transmissão pictórica de um conceito”, no caso o "conceito de elevação da alma" notado no procedimento de Dante Alighieri e no seu fracasso com as figuras alegóricas simbolizadas em Lúcifer, no Purgatório e na Águia do Paraíso, cujo sentido no dizer de Beckett é puramente “convencional e extrínseco” [1].

Se o ponto de partida de Proust situa-se no simbolismo ou nas cercanias deste não se pode desconsiderar que, como já mencionado, nesse Proust demasiado efetivista o objeto pode ser um símbolo vivo, porém um símbolo de si mesmo.

Por sua vez, tomado por diferença de certa literatura voltada para retratar – como os realistas e naturalistas – o efetivismo constitui uma orientação fundamental a esclarecer-lhe o individualismo sentimental e a desenvolver-lhe o princípio moral e artístico da reflexão estética de que “só a arte importa para o artista”, apreciado por Beckett em estreita ligação com o problema da objetividade literária levando à descoberta da realidade essencial, comum ao presente e ao passado.

Daí Beckett chamar a "reduplicação" de "revelação proustiana", no sentido da descoberta da obra de arte como preexistente ao artista.

Vale dizer: a identificação da experiência imediata à experiência passada, a repetição da ação ou reação passada no presente, que vimos acontecer com a intervenção da memória involuntária, importa no dizer de Beckett “uma participação do ideal e do real, o símbolo e a apreensão direta”.

Tal participação libera a realidade essencial – a qual por sua vez nem a vida contemplativa nem a vida ativa estão em medida de atingir, dada a impossibilidade de um contato direto e puramente experimental entre o sujeito e o objeto (do desejo), separados que são pela consciência da percepção do sujeito. Tal a necessidade de arte.

►Beckett considera que o efetivismo de Proust implicando certo ceticismo ante a causalidade o aproximaria dos românticos.

Entretanto, limitando esta asserção, nota o seguinte:

(1º) - em diferença do artista clássico se elevando artificialmente fora do tempo a fim de dar realce à cronologia e dar causalidade ao desenvolvimento temporal, em Proust, pelo contrário, é sumamente difícil seguir a cronologia, a sucessão dos fatos espasmódicos, a sucessão dos seus personagens ou de seus temas.

Beckett é conclusivo a este respeito e nos diz que:

(2º) - se tais fatos, personagens e temas parecem obedecer a “uma necessidade interior quase demente”, são apresentados e vão sendo construídos com um esplêndido desprezo dostoyevskiano pela mediocridade de uma concatenação verossímil.

(3º) - Quer dizer se, por sua vez, o artista romântico é muito interessado pelo Tempo, tem consciência da importância da recordação na inspiração, mostrando-se, porém, inclinado a sensacionalizar pela memória espacializada as evocações do Eu, Proust, ele próprio, “trata este Eu com força patológica e sobriedade".

►O tratamento dado por Proust ao Eu como ultrapassando o estilo dos românticos pode ser bem compreendido na equiparação à primeira pessoa da narrativa das “Mil e Uma Noites”, com Sherazade abrindo a página do conto em que vira contista e confundindo no Eu-próprio o Eu dos personagens, da mesma maneira em que o narrador proustiano dá origem ao livro dentro do livro, confirmando a arte do espelhismo, já posta em relevo por Beckett.

Segundo Bernard de Fallois, o personagem proustiano que diz “eu” na frase de Proust, isto é o narrador, mais do que um personagem estrito, deve ser considerado como um tom permitindo a Proust solucionar sua inquietação intelectual de que nenhum gênero literário lhe servia, mas todos os gêneros lhe apeteciam: “mediante os artigos, os ensaios, as cartas, os comentários, Proust se viu levado quase à força a adotar essa primeira pessoa que irá dirigir adiante todos os seus relatos”.

(...) “Passará quase sem dar-se conta da crítica ao romance, da filosofia às memórias”, tal a arte do personagem que diz “eu” – equiparado por B. De Fallois ao encantador das “Mil e Uma Noites”, já que será com esse personagem-narrador que em Proust se confundem todos os “Eu” do romantismo: “o de Michelet e o de Saint-Beuve; o de Chateaubriand e o de Nerval”. É Um e é múltiplo: a primeira pessoa em Proust outorga a unidade de seu estilo, o mais rico e variado que já existiu nas letras modernas.

►Beckett condensa sua reflexão sobre a ultrapassagem da causalidade em Proust comentando “os lamentos do narrador” na Parte Inicial – Tansonville – do Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé”.

Esclarece-nos que, na medida em que desdobram considerações do narrador sobre a qualidade da observação no artista, tais lamentos sobre a “falta de talento” compreendem o problema da “tábua dos valores da impressão artística”, a qual Beckett chama “tábua dos coeficientes de penetração no mundo dos fenômenos objetivos”, a que se chega mediante o cotejo e a diferenciação da situação individual do artista em face do cientista.

Com efeito, o que decepcionou o narrador após leitura de “Le Journal des Goncourt”, por ele considerado brilhantemente contaminado de informação, foi sentir-se limitado ao que supunha um hábito de observação não artístico a torná-lo “incapaz de registrar a superfície”, tal como nessa l’art du journal.

Beckett porá em relevo em tal decepção do narrador o contraste marcado por Proust com o “apreciado talento periodístico” notado no “Journal”, e nos aclara sobre a primazia do que se poderia chamar “a percepção instintiva”, compreendendo a intuição dentro do mundo proustiano.

O narrador sofre ao se dar conta de que ou ele carece de talento ou a arte (a tal l’art du journal) carece de realidade, já que ele não consegue ver “o copiável” e portanto não alcança a qualidade composta no “brilhantemente contaminado de informação” que é “Le Journal des Goncourt ”.

Dá-se conta de que o fator comum entre sua falta de talento ou deste “talento” e a falta de realidade da arte ou desta “arte” é que a ele lhe interessa menos o que se diz do que a forma em que se diz.

Beckett tirará desta constatação formulada pelo narrador, em modo correlativo, a proporção pela qual os estímulos intermédios chegam a ativar ou provocar a reação do narrador com mais imposição do que os estímulos extremos, capitais, vias do sofrimento ou do êxtasis, que funcionam como os hieróglifos – dirá ele logo na seqüência. (...)

***

Artigo reproduzido e aperfeiçoado pelo próprio autor Jacob (J.) Lumier



[1] Vimos acima que Beckett repele como delirante a imagem de um paraíso com retenção da personalidade de que se trata em Dante Alighieri.

Por ser um artista (orientado para o deleite extático) e não um profeta menor, prossegue Beckett, Dante não pode impedir que sua alegoria (conceitual) “se aquecera e se eletrificasse convertendo-se em anagogia”, o sentido místico substituindo-se ao literal.


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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O TRADICIONAL NA MODERNIZAÇÃO: NOTAS PARA A CRÍTICA da CULTURA OBSCURA, do GOTHIC E da ESTÉTICA DARK.



Já vimos que a Crítica da Cultura relaciona a Modernização, a literatura e arte de avant-garde (contemplando nesta última notadamente expressionismo e surrealismo), o romance e o individualismo.

Segundo T.W. Adorno, e não só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo), a crítica social deve ser equiparada ao conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma (Leia mais: "Para Compreender a Crítica da Cultura", link:
http://jl-cogitatio.blogspot.com/2008/03/para-compreender-crtica-da-cultura.html).


Mas não é tudo. Há também a crítica da cultura pela análise do tradicional na modernização desenvolvida por Ernst Bloch nas antípodas de Max Weber. Orientação esta fundada na história do Gótico Tardio na Alemanha e na experiência das revoluções camponesas dos séculos XV e XVI como vinculada à história das heresias cristãs.


À luz desta orientação crítica se coloca em questão igualmente o chamado estilo gothic,
considerado não somente como gosto do obscuro, mas como paixão das trevas, que teria nascido de uma visão fantasmagórica da Idade Média atribuída aos românticos.


Com efeito. Quando se busca uma definição para o que seria gothic ou dark nos dias de hoje, no mundo da indústria cultural, além da referência às manifestações comportamentais e indumentárias de feição tida por não-conformista ou “tribo urbana”, que recebeu essa denominação, admite-se freqüentemente em maneira confusa o seguinte: (a) - ser gothic ou dark relaciona-se mais a uma opção estética do que qualquer outra coisa; (b) – este sentido estético particular apresenta características definidas principalmente no que se refere às temáticas abordadas, mas não constituiria em si nenhuma escola artística
específica, absorvendo influências diversas, unindo em um mesmo caldeirão influências românticas, surrealistas, expressionistas y muchas otras más.


Os simpatizantes do chamado “movimento gothic”, que fez a fama de certos grupos do Rock’n’roll, vendo no romantismo do século XIX uma espécie de "reabilitação" da Idade Média e do seu imaginário, nos dirão que os românticos são os responsáveis pelo surgimento da "gothic novel" ou "romam noir", normalmente ambientados em castelos sombrios e ambientes tenebrosos.


Ultrapassando a noção simples de cultura obscura, reservada para designar unicamente as ambiências com pouca luz e muitas sombras, alguns idealizadores do gothic nos dirão ainda que "a celebração da noite escura" como passando a ser o lugar privilegiado da evocação dionisíaca
[1] se faz no romantismo literário, tomando-se como exemplo a obra de Novalis (Hinos à Noite).

Por essa mistificação do noturno, conduzindo a uma transposição nihilista do dionisíaco, acredita-se que na "urgência pela vida" do romantismo haveria o resgate de fantasiosos e impossíveis "valores noturnos" levando ao pessimismo, à loucura, aos sonhos, às sombras, à decomposição, à queda, à atração pelo abismo (trevas) e morte.


Para os simpatizantes do gothic, portanto, no "dark side" do romantismo se encontrariam praticamente todos os elementos estéticos que dão motivo e estilo aos apreciadores dessa figuração da tradição gótica.


Nada obstante, não se deve menosprezar o caráter contestatório da supersticiosa fantasia Dark projetada pelos simpatizantes do gothic com forte apelo a um público juvenil em renovada rebeldia ante a prosaica vida futura de incertezas constantes do mundo standardizado.


Corrente de índole artística com impacto produtivo na indústria do cinema, a cultura obscura encontrou-se reforçada na esteira do filme Star Wars pelas imagens da adoração iconoclasta de certos efeitos mentais para-normais e pelas menções alusivas a uma entidade/potência do escuro espaço sideral, dita a Força, absolutamente fictícia (dentro da própria ficção), a emanar da inverossímil simbiose com seres incorpóreos viventes, concepção fantasmagórica esta imprópria para aludir a qualquer totemismo artístico.


Aliás, não há horizonte etnológico nessa arte de superstições cabalistas e truques tecnológicos de Stars Wars. A tal Força ubíqua sem mito nem alienação é exaltada por um gnomo alienígena, o poderoso Mestre Yoda que não passa de um Gremlin civilizado.


Tal é a fantasia antiexperimental do filme fantástico que se revelou tão atrativa aos admiradores do déjà vu à maneira equivocada da utopia negativa em Aldous Huxley: um futurismo só em aparência inconformista que torna perpétuo o sistema do presente
[2].


Daí a resistência artística contrária acentuando haver deformações, mito e alienação ao invés de potências das trevas
no expressionismo e na ambiência obscura ou dark do cinema expressionista, cujo autêntico alcance crítico-estético, por sua vez, tem horizonte na existência e pode inspirar o ideal político – quer de trate dos clássicos dos anos vinte como Nosferatu de Murnau, ou do recente Batman-returns, de Tim Burton[3] .

►Inspirada no expressionismo, a Crítica da Cultura põe em questão o irrealismo como a perda do contato da realidade social sob todas as suas formas, tanto mais que sob o seu aspecto discursivo o irrealismo constitui um componente crítico estudado por pensadores sociais desde o século XIX.

Assim, por exemplo, em face da constituição da economia política como disciplina separada da sociologia econômica, e relacionando-a com a dominação das alienações, os sociólogos como Karl Marx já observavam que “os economistas burgueses estão impregnados pelas representações características de um período particular da sociedade em que a produção e as suas relações regem o homem ao invés de serem por ele regidas (o período das sociedades arcaicas), em tal modo que a necessidade de certa objetivação das forças sociais do trabalho lhes parece inteiramente inseparável da necessidade da desfiguração desse mesmo trabalho pela projeção e pela perda de si, opostas ao trabalho vivo”.

O irrealismo desde então era constatado no discurso que “acentua não as manifestações objetivas do trabalho, da produção, mas a sua deformação ilusória que esquece a existência dos operários para reter apenas a personificação do capital, ignorando a enorme força objetiva do trabalho que se exerce na sociedade, e que está na própria origem da oposição dos seus diferentes elementos”.

No século XX, com a concorrência sublimada, o indivíduo domesticado e a predominância do “déjà vu” no mundo da comunicação social, o irrealismo assume proporções mais sutis, e o dispositivo de projetar o futuro como perpetuação do sistema é disseminado a contrapelo da modernização e do próprio futurismo.

Nesse contexto, se o futurismo vem a ser afirmado como o estilo e a fantasia da vida urbano-industrial e do progresso desde as primeiras décadas do século XX não está o mesmo imune às confusões do irrealismo. Quer dizer, é segregada uma ideologia do futurismo que desde meados do século XX encobre com o manto do irrealismo o mundo da comunicação social .

Seja como for, se é paradoxal dizer que o gothic como suposta “atração das trevas” sendo procedente do romantismo constituiria uma opção estética, Ernst Bloch nos mostrará que, penetrando na psicologia coletiva, o Moyen âge inteiro do romantismo se integra na contradição não-contemporânea e não pode ser apreciado senão no âmbito dialético do problema do legado do passado dentro do processus histórico, assinalando o prolongamento do tradicional na modernização [4] .

***




[1] Em seu livro sobre a arte na Grécia clássica, intitulado “O Nascimento da Tragédia”, contrastando-o com Apolo, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche considerou Dionísio como símbolo da força vital básica e incontrolada (criação) em face do mundo da Razão, ordem e beleza representado por Apolo. O contraste entre os papeis destas duas divindades do Olimpo deu lugar aos adjetivos apolíneo e dionisíaco.

[2] Star Wars deve ser apreciado em contraste com as antecipações futuristas de Jornada nas Estrelas (Star Trek), onde o futurismo é mais a expressão de um futuro virtual do que projeção do sistema presente para mais além.

[3] Ver nosso artigo Mito e Alienação: Batman, o Expressionismo, e o Gothic. Link:

http://docs.google.com/View?docid=ddm5qvxk_32gfr8xw

[4] Ver nosso artigo “O Gothic, o Romantismo e a Filosofia da Arte: Linhas para uma filosofia expressionista”: link:

http://docs.google.com/View?docid=ddm5qvxk_68dgt8x8

Ver também de nossa autoria “Introdução ao Estudo do Gótico Tardio na Leitura de Ernst Bloch”: link

http://docs.google.com/View?docid=ddm5qvxk_64f2csbt



Artigo elaborado por Jacob (J.) Lumier

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sábado, 2 de agosto de 2008

NOTÍCIA DE ALICIA KEYS com o vídeo de "Superwoman" neste blog

En el espacio de dos álbumes, Alicia Keys se ha convertido en un nuevo tipo de niña prodigio do neo-soul. Joven y bonita, ella supo tirar de esto el mejor de sus influencias: sea el jazz, el hip hop, la música clásica y el Contemporary R&B .

Niña prodigio, empezó a aprender música en la edad de cinco años, en particular el piano, antes de pasar por las más prestigiosas escuelas de música de Nueva York, dedicando-se por entero a su pasión.

Con su primer álbum, Songs In A Minor, de 2001, Alicia Keys fue consagrada como una de las mejores en el Contemporary R&B. Su talento parece no tener límites.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

PANORAMA DO CINEMA FRANCÊS


CINEMA FRANCÊS NO ODEON PETROBRÁS - RIO
21 a 26 de Junho

ACESSE O WEBSITE DO PANORAMA DO CINEMA FRANCÊS
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FILMES - EVENTOS ESPECIAIS
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INGRESSOS COM MEIA ENTRADA NAS SESSÕES

sábado, 24 de maio de 2008

Sociologia do Romance



Estruturas Econômicas e Forma Romanesca

Por

Jacob (J.) Lumier

EPÍGRAFE

Na sociologia da forma romanesca, para saber como se faz a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias em uma sociedade em que esta ligação tem lugar no exterior da consciência coletiva deve-se observar a ação convergente de quatro fatores diferentes.

A sociologia do romance mais diretamente voltada para a arte e literatura de avant-garde ultrapassa a tentativa tradicional de mostrar que a biografia e a crônica social constitutivas do romance em sua fase mais antiga refletiam mais ou menos a sociedade da época. Admite-se a inovação pela qual passa-se a investigar a relação entre a forma estética romanesca ela mesma e a estrutura do meio social no interior do qual ela se desenvolveu.

A hipótese desenvolvida por Lucien Goldmann a respeito disso enuncia que a forma romanesca é a transposição no plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista de produção para o mercado e que existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance, por um lado, e por outro lado a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e com os outros naquela sociedade.(Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs.).

O esquema psicossociológico desta situação põe em relevo o advento do valor econômico de troca alterando as formas sociais pré-capitalistas em que a produção era conscientemente regida pelo consumo futuro, pelas qualidades concretas dos objetos, por seu valor de uso. Desta sorte, na medida em que se verifica na sociedade produtora para o mercado, a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias passaram a ter lugar no exterior da consciência coletiva .

Vale dizer, na relação cotidiana dos homens com os bens em geral e com os outros em uma sociedade individualista de produção para o mercado observa-se a supressão no plano da consciência dos homens da relação aos valores de uso, a qual no dizer de Lucien Goldmann passa por uma redução ao implícito por efeito da mediação do próprio valor de troca.

Visando pôr em relevo que a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias tem lugar no exterior da consciência coletiva, esse autor faz uma comparação do comportamento econômico dos indivíduos em uma sociedade produtora para o mercado, por um lado, e por outro lado nas outras formas de sociedade anteriores, dizendo-nos que nestas últimas a estrutura mental da mediação não é observável já que a economia é considerada natural. Quando um homem precisava de um vestimento ou ele o produzia ele-mesmo ou o demandava a um indivíduo capaz de produzi-lo, o qual, por sua vez, fosse em virtude de certas regras tradicionais, fosse por razões de autoridade ou de amizade ou ainda, fosse em contrapartida de certas prestações devia ou podia lhe fornecer tal vestimento.

Por contra, nas sociedades de mercado, quando se quer obter um vestimento importa conseguir o dinheiro necessário a sua compra. Por exemplo: o produtor de roupas é indiferente aos valores de uso dos objetos que ele produz. Aos seus olhos estes não passam de um mal necessário para obter aquilo que unicamente lhe interessa: um valor de troca suficiente para assegurar a rentabilidade de sua empresa. Daí se nota a mediação como substitutivo de toda a relação ao aspecto qualitativo dos objetos e dos seres, caracterizando o predomínio da relação aos valores de troca, quantitativos.

Nada obstante, é fato que tal mediação não suprime totalmente os valores de uso da consciência coletiva dos homens, permitindo-se Lucien Goldmann sublinhar que o caráter dos valores da vida econômica comporta um paralelo com o caráter dos valores perquiridos na forma romanesca, a saber: os valores de uso tomam um caráter implícito exatamente como o caráter dos valores autênticos no mundo do romance.

Para acentuar tratar-se de uma homologia rigorosa, Lucien Goldmann toma por um fato principal de sua análise psicossociológica que, como consumidor último oposto no ato mesmo da troca aos produtores, todo o indivíduo na sociedade produtora para o mercado se encontra em certos momentos da jornada em situação de vislumbrar os valores de uso qualitativos que ele não pode alcançar a não ser pela mediação dos valores de troca. Se tivermos em consideração que os criadores no domínio da cultura são os indivíduos que permanecem orientados essencialmente para os valores de uso poderemos alcançar a evidência de que a criação do romance como gênero literário não tem coisa alguma de surpreendente.

A respeito dessa situação são observados dois aspectos seguintes: (a) – se levarmos em conta que a vida econômica no plano consciente e manifesto se compõe de gente orientada exclusivamente para os valores de troca constataremos que os criadores de cultura, como indivíduos ligados à produção, por permanecerem orientados essencialmente para os valores de uso não somente se situam por isso à margem da sociedade, mas se tornam o que na sociologia de Goldmann se chama indivíduos problemáticos; (b) – nada obstante admite-se como ilusão romântica supor uma ruptura total entre a vida interior e a vida social, mesmo a respeito da situação desses indivíduos problemáticos já que, como criadores de cultura, não poderiam eles destacarem-se da degradação que sofre sua atividade criadora na sociedade produtora para o mercado, desde o momento em que essa atividade se manifesta exteriormente nos quadros, nos livros, no ensino, na composição musical, etc. as quais desta maneira passam a desfrutar de um certo prestígio, por via do qual adquirem um preço.

Quer dizer, a criação do romance, sua forma complexa ao extremo é a forma na qual vivem os homens os dias todos ao serem compelidos a buscar toda a qualidade, todo o valor de uso, por um modo inautêntico através da mediação da quantidade, do valor de troca. Complexidade esta acentuada pelo fato de que todo o esforço para se orientar diretamente aos valores de uso não engendra senão os indivíduos também como inautênticos, embora sob um modo diferente, que é o do indivíduo problemático. Para Goldmann essa análise psicossociológica esboçada prova que as duas estruturas – a da forma ou gênero romanesco e a da troca econômica competitiva – mostram-se tão rigorosamente homólogas que é possível falar de uma única e mesma estrutura que se manifestaria em dois planos diferentes.

Leia mais: Estruturas Econômicas e Forma Romanesca


domingo, 10 de fevereiro de 2008

O gothic, o romantismo e a filosofia estética: notas para uma crítica da chamada “cultura obscura”. Primeira Parte



O gothic, o romantismo e a filosofia estética:
notas para uma crítica da chamada “cultura obscura”.
Primeira Parte

O chamado gothic considerado não somente como gosto do obscuro, mas como paixão das trevas teria nascido de uma visão fantasmagórica da Idade Média atribuída aos românticos.
Quando se busca uma definição para o que seria gothic ou dark além da referência à tribo urbana que recebeu esta denominação admite-se (a) - que ser gothic ou dark relaciona-se mais a uma opção estética do que qualquer outra coisa; (b) – que este sentido estético particular apresenta características definidas principalmente no que se refere às temáticas abordadas, mas não constituiria em si nenhuma escola artística específica, absorvendo influências diversas, unindo em um mesmo caldeirão influências românticas, surrealistas, expressionistas y muchas otras más.
Os simpatizantes do chamado movimento gothic, vendo no romantismo do século XIX uma espécie de "reabilitação" da Idade Média e do seu imaginário, nos dirão que os românticos são os responsáveis pelo surgimento da "gothic novel" ou "romam noir", normalmente ambientados em castelos sombrios e ambientes tenebrosos. Ultrapassando a noção simples de cultura obscura, dirão-nos ainda que a celebração da noite obscura como passando a ser o lugar previlegiado da celebração dionisíaca se faz no romantismo literário, tomado como exemplo a obra de Novalis ( Hinos à Noite). Haveria o resgate dos valores noturnos levando ao pessimismo, à loucura, aos sonhos, às sombras, à decomposição, à queda, à atração pelo abismo (trevas) e morte, bem como à urgência pela vida. Para os simpatizantes do gothic, portanto no "dark side" do romantismo se encontrariam praticamente todos os elementos estéticos que tanto deliciam os góticos até os dias de hoje...Além da sua origem através da gothic novel.
Não será paradoxal dizer que o gothic como atração das trevas sendo procedente do romantismo constituiria uma opção estética ?
Sem dúvida, essa abordagem do gothic como paixão das trevas, sendo cogitada pelo aspecto da filosofia da arte suscita um tema crítico, a saber: será legitimo falar de estética no romantismo tendo em conta que toda a arte afirma um horizonte, afirma a criação? O gosto das trevas pelas trevas, a atração do romantismo pelo abissal não será nihilismo? Não será uma apologia do Nihil ex-nihilo, uma filosofia do nada que se tira do nada, portanto negação absoluta da criação tornada non-sense absoluto? Dizer que o gothic como atração das trevas, sendo procedente do romantismo constituiria uma opção estética não será paradoxal?
Neste e-book haverá oportunidade para inferir sobre o artificialismo de uma abordagem artística sobre o gothic como cultura obscura. No século XX toda a abordagem artística só é válida se compreende como nos sugere Theodor W. Adorno que l'art assume sa liberté en se fermant aux classes défavorisées: cette négativité de la culture est part de sa vérité. L'industrie culturelle, par le primat du divertissement, abuse au contraire de "prévenances à l'égard des masses", en leur fournissant l'amusement que recherche "celui qui veut échapper (dans ses loisirs) au processus du travail automatisé". Mais elle ne lui offre pour cela que des produits qui sont la copie du travail, puisque sa production repose sur les mêmes principes que toute production industrielle: même division du travail, même standardisation, etc .
Deste ponto de vista o chamado gothic é cultura de massa, é tribo urbana, é fenômeno comportamental e não opção estética, a não ser que se prolongue artificialmente a noção do estético para incluir o comportamental, os esteriótipos e, desse modo, se venha a falar de sentido estético particular. Prolongamento este que é muito problemático tratando-se de opções ou preferências, sobretudo veleidades produzidas ou induzidas pela indústria cultural (estereótipos de contestação social) sobre os seus consumidores. Em sumo: haveria um sentido estético particular (industrial) nas veleidades tidas como contestação social identificadas aos comportamentos de certos grupos de admiradores da cultura obscura (gosto do obscuro na literatura, nas artes e, sobretudo no cinema e no Rock and Roll): os chamados gothics.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ROCK’N’ROLL, POLÍTICA E HISTÓRIA: "tres días de paz y música".



El festival de Woodstock sucedido de 15 a 18 de Agosto de 1969 (em uma fazenda próxima da cidade de Woodstock no Estado de New York) llegó en medio de un conflicto militar en el extranjero y la revolução social no país com a extensão dos direitos civis. The March on Washington for Jobs and Freedom was a large political rally that took place in Washington, D.C. on August 28, 1963. Martin Luther King, Jr. delivered his historic "I Have a Dream" speech advocating racial harmony at the Lincoln Memorial during the march. Approximately 250,000 people took part in the march; it is estimated that 200,000 were African American and 50,000 were white. (The march was organized by a group of civil rights, labor, and religious organizations. Following the march, the Civil Rights Act (1964) and the National Voting Rights Act (1965) were passed).
The Woodstock Music and Art Fair Fue el más grande bash de la contracultura y es un recordatorio de la juventud y el exceso de hedonismo de los años 60. Se trata de una culminación de lo que significó la contracultura : as bandas foram chamadas pela geração que estava questionando a direção da sociedade americana e constituiu o contrapeso mais decisivo para apaziguar a discordia racial en el país. Muchos de los más grandes artistas de los años 60 estaban en el Festival, y es su influencia en la juventud que los pusieron junto a una granja de Bethel, en la lucha contra el mal tiempo, la escasez de alimentos y el saneamiento deficiente . El sitio de Woodstock se convirtió, durante cuatro días, un countercultural mini-nación: as mentes estaban abiertas. Se trata de un festival donde cerca de 500.000 "hippies" se reunieron para celebrar bajo el lema de "tres días de paz y música".
Leia mais na http://en.wikipedia.org

Woodstock in 1969

ESSE TAL DE ROQUE ENROW

ESSE TAL DE ROQUE ENROW

ESSE TAL DE ROQUE ENROW
(Rita Lee / Paulo Coelho)
Ela nem vem mais pra casa, doutorEla odeia meus vestidosMinha filha é um caso sério, doutorEla agora está vivendoCom esse tal de... Roque Enrow Roque Enrow, Roque En...
Ela não fala comigo, doutorQuando ele está por pertoÉ um menino tão sabido, doutor Ele quer modificar o mundoEsse tal de Roque EnrowRoque Enrow
Roquem é ele? Quem é ele?Esse tal de Roque Enrow?Uma mosca, um mistérioUma moda que passouE ele, quem é ele?Isso ninguém nunca falou!
Ela não quer ser tratada, doutorE não pensa no futuroE minha filha está solteira, doutor Ela agora está lá na salaCom esse tal de Roque Enrow Roque Enrow, Roque En...
Eu procuro estar por dentro, doutorDessa nova geraçãoMas minha filha não me leva à sério, doutorEla fica cheia de mistério Com esse tal de Roque EnrowRoque Enrow
Roquem é ele? Quem é ele?Esse tal de Roque Enrow?Um planeta, um deserto, Uma bomba que estourouEle, quem é ele?Isso ninguém nunca falou!
Ela dança o dia inteiro, doutor E só estuda pra passar
E já fuma com essa idade, doutor Desconfio que não há mais cura
Pra esse tal de Roque Enrow Roque Enrow, Roque Enrow Roque En...row

***

Ler sobre Rock and Roll e História:

Qué pasa con el rock& roll?

Política y rockn' roll.


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

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A MULHER EM PROUST
Uma mulher e o mar. Visão e tragédia de Albertine Ensaio minúsculo sobre as cinco cenas figurativas em que a mulher adquira figura literária trágica como objeto do desejo na arte romanesca de Marcel Proust.

Cena 1: Cena do primeiro contato no balneário de Balbec - a multiplicidade pictórica de Albertine convertendo-se em uma multiplicidade plástica. A visão de Albertine antes e depois do primeiro contato se altera muito mais do que um simples efeito do ângulo de enfoque do observador, desembocando em um tumulto de contradições objetivas e imanentes sobre as quais o sujeito (narrador proustiano) carece de controle. O narrador vê Albertine pela primeira vez incorporada ao brilho do pequeno bando de moças em bicicletas contrastadas pelo mar. Grupo pictórico este que, em sua adoração invejosa, o narrador simbolizará nas Bacantes. Albertine lhe parece carecer de individualidade e, nessa imaginação pictórica, está como envolta em um casulo: “uma crisálida delicada e quase abstrata” em tal modo que “só o mistério do bando orgiástico de Bacantes” envolvendo-a num “cerco de rosas que rompe as linhas das ondas” é a única imagem válida e que permanecerá nas referências posteriores do narrador.

Cena 2: Em outro dia ela o fita na praia. Frase desse relato retrospectivo escrita pelo narrador então já fascinado pelo desejo de possuí-la e pressentindo a impossibilidade desse sentimento: “soube que não possuiria a jovem ciclista se não conseguisse possuir o que havia em seus olhos” - ele ainda não consegue vê-la dissociada do mistério das bacantes em bicicleta.

Cena 3: O contato com ela lhe é proporcionado pelo pintor Elstir que lha apresenta, e ele “começa a conhecê-la através de uma série de subterfúgios” em que cada fragmento de sua fantasia e seu desejo é substituído por um conceito bastante menos preciso. Criar-se-á então a Albertine da multiplicidade plástica, cujas expressões são equiparáveis a um caleidoscópio. Empenha-se em observá-la em todas as oportunidades. Observa-a nas relações dela com Mme. Bontemps; nas primeiras ambigüidades entre ele e ela; no reflexo de um luar em seu queixo; na maneira em que emprega o advérbio ‘perfeitamente’ no lugar de ‘inteiramente’; na inflamação no canto de seu olho interferindo nas suas feições e, dessas observações, encontra a aparência dela como a passar da superfície mansa e polida a “um estado quase fluido de alegria translúcida, uma congestão febril”. Quando ousou seu primeiro gesto impreciso de aproximação é repelido com frieza, levando-o a concluir que, em modo contrário à sua fantasiosa hipótese inicial de ser ela a possível amante de um corredor ciclista ou de um campeão de box, Albertine era honesta e fora falsa sua apreciação sobre o caráter dela.


Cena 4: Todavia essa impressão cambiará. A tragédia de Albertine se complica alterando o estado do narrador nas relações entre ele e ela em Paris, marcado por certa perplexidade em face da própria incapacidade dele para encontrar um denominador comum interligando a nova Albertine ou a nova multiplicidade dessa nova Albertine agora tomada em seus braços. A configuração poética já não tem apenas uma base visual, fosse pictórica ou plástica. O objeto do desejo que ela parece simbolizar, a mulher e o mar, acentuando no plano espiritual o prazer desfrutado dos favores dela, sofisticada, para ele já iniciada, esse objeto ou esse composto, através do hábito dela, leva a formar um segundo composto, desta vez com os ciúmes. De fato, a simbolização de Balbec e seu mar através do hábito de Albertine vem a ser restituída como amálgama do humano e do marinho em um estímulo do coração exatamente através dos ciúmes. A visão de Albertine espantando o narrador e escapando a toda a composição de unidade mostra não só a Albertine de sua imaginação, a apaixonada e irreal da praia; a Albertine real e virginal aparentemente, revelada a ele no final de sua estadia em Balbec; Mas também lhe mostra esta terceira Albertine que, no dizer de Beckett, “cumpre a promessa da primeira na realidade da segunda”.


Cena 5: Mas essa nova Albertine é múltipla e o narrador vê claramente a dificuldade em viver com ela, melhor: vê a ameaça aos seus sentimentos. Tanto que, depois de sua primeira visita à Princesa de Guermantes, quando sentado em seu quarto esperando-a que não chega, sente como esta “não chegada” exalta uma simples irritação física convertendo-se em chama de angústia espiritual. Muito mais que o ouvido ou a mente, o narrador é todo o coração ao atentar para os passos dela ou para a chamada sublime do telefone. Destaca-se ainda a necessidade, a carência com que o narrador relacionou o consolo outrora obtido pelo carinho de sua mãe à esperada chegada de Albertine, causando-lhe ademais uma inquietação suplementar a consciência de haver visto nesta Albertine comum “uma fonte de consolo e salvação que milagre algum poderia substituir”. Tal a impressão da impossibilidade em possuir o outro que então o narrador formula na seguinte frase: “só se ama aquilo que não se possui, só se ama aquilo no qual se busca o inacessível”. Será a este e a outros semelhantes pensamentos do narrador que, como veremos, Beckett se refere ao afirmar que... Em Proust, o amor é uma função da tristeza, comportando o sentimento de que nessa matéria não há escolha ruim, posto que o fato mesmo de que tenha havido uma escolha implica que tenha sido ruim!

EXTRATOS DE “A SOCIOLOGIA DO ROMANCE À LUZ DA COMUNICAÇÃO SOCIAL”
Fonte: Blog Comunicação e Democracia
link http://sociologia-jl.blogspot.com/2007/04/view-blog-top-tags.html
Leia mais:
Lumier, Jacob (J.): L’utopie Négative dans la Sociologie de la Littérature: Articles au Tour de Marcel Proust Redigés en Portugais (133 pages), Internet, E-book, PDF, 2007,
< http://www.lulu.com/content/846559 >
Sociologie de La Littérature - I : Lecture de Proust - Une Approche Inspirée par Samuel Beckett (Ensaio, 134 págs)
< http://www.lulu.com/content/1028643 >

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