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sexta-feira, 20 de abril de 2007


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EXTRATOS DE

“A SOCIOLOGIA DO ROMANCE À LUZ DA COMUNICAÇÃO SOCIAL”

Jacob (J.) Lumier


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Sumário dos Artigos

SOCIOLOGIA, LITERATURA E FANTASIA:

O problema das relações com a sociologia do conhecimento

O ROMANCE: INDIVIDUALISMO E REIFICAÇÃO:

Sobre a ética do escritor, a ironia e o problema estético do gênero romanesco

CRISE DO ROMANCE E INDIVIDUALISMO:

A Estandardização como fator da Montage em T.W. Adorno

ESTRUTURAS ECONÔMICAS E GÊNERO ROMANESCO

O TEMA DA AUSÊNCIA E A PRESENÇA DE PROUST

O INDIVIDUALISMO EM PROUST





SOCIOLOGIA, LITERATURA E FANTASIA.

Os critérios do fato literário e as condições de uma sociologia da literatura.

Por

Jacob (J.) Lumier

O escritor é um fabulador: não diz a verdade e é sempre a verdade que ele diz... à sua maneira.

As dificuldades antepostas a uma sociologia da literatura ligam-se à orientação intelectual do chamado espírito burguês afirmando a independência total da cultura e da arte em relação às formas sociais, de tal sorte que a interpretação da arte não estaria contida na vida social. Daí surge o obstáculo da interdição pela sociedade. O receio de um efeito literalmente ameaçador da ordem torna o fato literário negado na sua significação, combatido como pura fantasia. Distingue-se uma espécie de respeito ao fato literário envolvendo-o em certo mistério. Desta atitude provêm duas representações desfavoráveis à sociologia da literatura, seguintes: (a) – uma, a chamada teoria do gênio, que interpreta a figura do autor em termos do inexplicável e inesperado no concerto das paixões e dos pensamentos humanos; (b) – outra, referida à elaboração da obra, é a teoria romântica da inspiração, do mistério da criação, etc. Além disso, o espírito burguês pode levar os escritores a não gostarem de se ver integrados pela sociologia [1].

Podem-se observar algumas tentativas de pesquisa que, não obstante o pensamento objetivo, pouco favoreceram a sociologia da literatura. Umas porque mantiveram a opacidade intocável do fato literário; outras porque acentuaram a sua redução. No primeiro caso, resume-se a tentativa mais conhecida que foi a de TAINE, incluindo os seus colaboradores. No segundo caso, nota-se a tentativa marxista e a psicanalítica. Comenta-se que TAINE esperava fundamentar uma ciência positivista e determinista da literatura tomando como motivos de explicação (a) – a descoberta em cada escritor de uma faculdade mestra; (b) – a gênese dessa faculdade mestra a partir das suas três famosas condições: a raça, o meio e o momento. O dogmatismo de TAINE é flagrante na analogia com as ciências naturais. No prefácio de sua obra “La Fontaine et ses Fables”, o ponto de vista naturalista vem a ser aplicado ao homem, tomando-o como um animal de espécie superior que produz as filosofias e os poemas pouco mais ou menos como os bichos da seda tecem os seus casulos e as abelhas elaboram os favos [2]. Quanto aos seus continuadores, se repele o simplismo na aplicação do dogmatismo de TAINE, questionando-se, sobretudo a abordagem analítica redutiva na qual a obra literária, tida como mistério inefável e impenetrável, vem a ser reportada a um fator mais ou menos arbitrariamente escolhido. Em relação à tentativa marxista, por sua vez, se lhe reconhece o mérito sociológico de empreender a inter-relação do espírito e das suas produções com os quadros sociais. O primeiro critério de análise marxista da obra literária é a fidelidade à realidade social. Nada obstante, a tentativa marxista de reduzir a literatura a um fato de conhecimento mediante a tipologia das visões de mundo atribuída a Georges Lukacs, é censurada por ameaçar a especificidade do fato literário. Ao traçar um método comum a todas as obras de pensamento tornou-se inevitável por conseqüência desprezar o que distingue precisamente o fato literário dos outros fatos [3] . Censura idêntica se aplica à tentativa psicanalítica, em cuja abordagem necessariamente se tem de partir sempre de uma redução implicando uma negação da especificidade. Por contra, as condições de uma sociologia da literatura implicam a distinção entre fato literário e fato de conhecimento.

· O problema das relações com a sociologia do conhecimento

Com efeito, já observamos que o fato literário é para uma sociedade um modo de ela tomar consciência de si própria. Daí advem o tabu que acentua exatamente a especificidade do fato literário e faz reconhecer no mesmo um fato de valor não confundível com as suas condições genéticas nem com as suas condições de sobrevivência, nem tampouco com as intenções do seu criador, nem enfim com as suas repercussões psicossociais. Aquilo que há na obra literária pelo qual se chega à afirmação de que a literatura satisfaz certa necessidade cultural não utilitária, ou seja: o valor literário, é inicialmente o elemento que difere um livro de poemas ou um romance de um jornal. Sem dúvida, o qualificativo e o valor que ocorrem imediatamente aos leitores, pelo que eles identificam o fato literário, não é o mesmo para todos os públicos. A identificação do fato literário seja como romance ou poema ou ensaio se define também socialmente e não apenas pelo método, sem que isto impeça tomar-se o valor literário como ponto de partida da pesquisa sociológica. Tanto é assim que, para Albert MEMMI, a tarefa específica dessa pesquisa é a sociologia do fato literário, que este autor qualifica como uma sociologia privilegiada diante do objeto impresso. No seu dizer, trata-se da sociologia do que é adequado ao fato literário, do que neste não coincide com outra coisa, não coincide com o escrito como mercadoria, como produto de transformação, etc.[4] Na busca dessa adequação é que se aprofunda o problema das relações com a sociologia do conhecimento chegando-se aos seguintes resultados: (a) – se um fato literário pode nos ensinar certas coisas e se a literatura é por isso uma das técnicas de comunicação social, o sociólogo deve precaver-se, entretanto de que é sempre possível uma distorção dos fatos: as informações dadas pelos escritores não atendem à finalidade de uma enquête. Quer dizer, (b) – embora possa admitir-se que o autor tenha a intenção de ensinar-nos certas coisas, as intenções do autor de obra literária são evasivas ou mudam de rumo no decurso da atividade. O que diz é quase tão importante quanto a forma de dizê-lo, forma esta que por sua vez influi sobre o conteúdo do discurso acabando por transformá-lo. O escritor é um fabulador: não diz a verdade e é sempre a verdade que ele diz... à sua maneira. A distorção é sempre possível, seja em conseqüência de uma reconstrução imaginativa, por razões de forma ou simplesmente por ardil (ditado por razões sociais). A finalidade de uma obra literária não é a mesma de um documento, nada obstante admite-se possível interpretar as informações dadas pelos escritores considerada a finalidade estética da obra literária, na qual não se trata de representar a realidade social - para o que os jornais da época seriam superiores a todos os romances do mesmo período.

· A importância de Goethe ou de Shakespeare não provém de sua filosofia, mas de terem criado um objeto novo que é o objeto literário.

Desde o ponto de vista da finalidade literária e em face dos esforços de interpretação, o fato literário não pode ser reduzido a significações sociais nem a significações psicológicas para compreender, ajuizar e classificar as obras. A significação considerada como atributo de uma visão de mundo mais ou menos coerente (uma weltanschaung) levaria a que os escritores surgiriam com espantosa insignificância ao lado dos pensadores: que seria um Rousseau ao lado de Kant? Gide comparado a Nietzsche? Por contra, as noções de objeto literário e eficácia estética levam a repensar em outro modo a significação aplicada ao fato literário: a importância de Goethe ou de Shakespeare não provem da sua filosofia, mas de terem criado um objeto novo que é o objeto literário. Nesse objeto se encontram dotadas da máxima eficácia estética certo número de idéias (uma visão de mundo), mas também certo número de emoções. Se, favorecendo a especificidade do fato literário como configuração de valor, admitirmos que a eficácia está mais próxima da afetividade do que da idéia teríamos confirmada a constatação de que algumas idéias afetivamente muito significativas podem ser infinitamente mais eficazes do que uma weltanschaung. Nesta perspectiva sobressai que a sociologia da literatura deve ser também uma sociologia da fantasia, de sorte que, ao se orientar para a apreensão do desejado em literatura, assume um ponto de vista interior ao fato literário, trazendo para o campo da sociologia as significações que a própria fantasia comporta ou elucida. Antes de nos ensinar coisas, tais significações são aquelas de que nos ocupamos: a fantasia elucida de maneira tão indireta e tão variada que todos os achados, disfarces, fugas, subterfúgios estranhos devem ocupar-nos pelo menos tanto quanto podem ensinar-nos. Albert Memmi sustenta que uma sociologie du voeu [5] implica e ultrapassa a noção de consciência possível aplicada na sociologia da literatura por Lucien Goldmann, entendida como noção que dá conta das aspirações tendenciais. Portanto, sendo um fato de valor, o objeto literário deve ser examinado como composto não somente de um elemento de significação, mas de jubilo, de relação com o criador, de relação com os leitores, etc.

Palavras chaves: fantasia / visão de mundo / fato de valor / eficácia estética /

/ objeto literário.

Categorias: Comunicação social / Sociologia / Literatura / Pesquisa / Conhecimento.

©2007 Jacob (J.) Lumier

jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br.




[1] Ver o Artigo de Albert MEMMI intitulado “Problemas de Sociologia da Literatura”, publicado como colaboração no Tratado de Sociologia-Vol. 2, dirigido por Georges Gurvitch., Porto, Iniciativas editoriais 1968 (1ªedição em Francês: Paris, PUF,1960).

[2] Apud Albert Memmi, op.cit.

[3] Ibid. ibidem.

[4] Albert Memmi, op. cit.

[5] Voeu = aspiração como prece; desejo; engajamento como promessa ou juramento.


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O ROMANCE: INDIVIDUALISMO E REIFICAÇÃO

Sobre a ética do escritor, a ironia e o problema estético do gênero romanesco.

Por

Jacob (J.) Lumier

A sociologia dos personagens se integra no âmbito de uma pesquisa mais ampla sobre a existência possível de uma homologia entre a história das estruturas reificacionais e as estruturas romanescas.

A sociologia da literatura se desenvolveu impulsionada pelos debates em torno ao romance e sua origem na cultura gerada pela burguesia. Nesses debates sobressai o problema da natureza das transformações sociais que efetivamente provocaram ou fizeram sentir como necessária a criação de uma forma romanesca nova. É a análise da correlação entre o mundo romanesco do personagem em suas relações com os objetos figurados, por um lado, e por outro lado, as transformações na vida social do século XX. Interesse de análise este provocado, depois de Balzac e Stendhal, pela acentuada dificuldade reconhecida junto aos autores contemporâneos em descrever a biografia e a psicologia do personagem, sem limitar-se ao anedótico ou ao fato diverso. Desse modo, os sociólogos buscaram verificar a hipótese de que a forma romanesca como estrutura das relações personagem/objetos no mundo do romance deve ser compreendida como sendo a mais imediatamente e a mais diretamente ligada às estruturas comportamentais de troca mercantil e de produção para o mercado, na medida em que estas estruturas sociais e econômicas admitem uma psicossociologia particular. Observando o romance no século XX, constatou-se, por um lado, a transformação da unidade estrutural personagem/objetos como levando não somente ao desaparecimento mais ou menos acentuado do personagem, mas, correlativamente, acentuando o reforço da autonomia dos objetos. Constatação esta que logo faz lembrar a observação de que as estruturas auto-reguladoras da economia de troca levam ao deslocamento progressivo do que Lucien Goldmann chamou coeficiente de realidade do indivíduo cuja autonomia e atividade são transpostas para o objeto inerte[1].

Como transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, a reificação é um processus psicológico permanente, agindo secularmente no âmbito da produção para o mercado.

Com efeito, este autor percebeu que o estudo da alteração verificada no plano dos personagens literários se integra no âmbito de uma pesquisa mais ampla sobre a existência possível de uma homologia entre a história das estruturas reificacionais e a das estruturas romanescas. Para investigar a possibilidade de tal homologia é preciso ter em conta o seguinte: 1) – que, como transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, a reificação é um processus psicológico permanente, agindo secularmente no âmbito da produção para o mercado; 2) – que o aspecto concreto das estruturas reificacionais acompanha a periodização da sociologia econômica seguinte: (a) – fase da economia liberal se prolongando até o começo do século XX, caracterizada por manter ainda a função essencial do indivíduo na vida econômica (e por extensão na vida social). Note-se que toda essa análise decorre da interpretação do modelo de sociedade liberal clássica como comportando uma interpenetração do aspecto econômico e do aspecto psicológico. A referência sociológica principal é a constatação de que a regulação da produção e do consumo em termos de oferta e demanda se faz por um modo implícito e não consciente, impondo-se à consciência dos indivíduos como a ação mecânica de uma força exterior. Desta forma, todo um conjunto de elementos fundamentais da vida psíquica desaparece das consciências individuais no setor econômico para delegar suas funções à categoria preço, que aparece como uma propriedade nova e puramente social dos objetos inertes, os quais, por sua vez, passam então a guardar as funções ativas dos homens, a saber: tudo aquilo que era constituído nas formações sociais pré-capitalistas pelos sentimentos transindividuais, pelas relações com os valores da afetividade que ultrapassam o indivíduo, incluindo o que significa a moral, a estética, a caridade, a fé. Daí porque no romance clássico os objetos têm uma importância primordial, mas existem somente por meio do trato que lhe dão os indivíduos. Entretanto, essa situação muda (b) – na fase dos trustes, monopólios e do capital financeiro, observada no fim do século XIX e, notadamente, no começo do século XX, tornando-se acentuada a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual na interior das estruturas econômicas. Na (c) - fase do capitalismo de organização, observado depois dos anos de 1930 pela intervenção estatal impondo os mecanismos de auto-regulação do mercado, se constata, em modo correlativo à supressão progressiva da importância essencial do indivíduo, não somente a independência crescente dos objetos, mas a constituição desse mundo de objetos em universo autônomo tendo sua própria estruturação.

A forma estética romanesca compreende a ironia como afirmação da tomada de consciência do caráter inautêntico do herói e de toda a esperança ou busca possível.

Ao parecer de teoria sociológica, a sociologia literária de Lucien Goldmann pode ser considerada uma sociologia da redução ao implícito, abrangendo não somente a sociologia dos temas e dos personagens, mas a do autor, especialmente, a sociologia do romance como forma estética literária. Admite-se que o romance se caracteriza como a história de uma busca por valores humanos autênticos, busca essa que se apresenta sob um modo degradado ou inautêntico, em uma sociedade degradada ou inautêntica desde o ponto de vista existencial, degradação que, no tocante ao herói, se manifesta em princípio pela mediatização, isto é, a degradação se manifesta pela redução dos valores autênticos ao nível implícito precipitando seu desaparecimento como realidades manifestas. Nessa compreensão, tem-se a premissa de que toda a forma literária sob o aspecto propriamente estético nasce da necessidade de exprimir um conteúdo essencial, de tal sorte que a situação ética do escritor constituirá um elemento da obra mais interior e profundo do que, por exemplo, a percepção de um público leitor. Deste ponto de vista estético, se a degradação caracterizando a busca romanesca fosse superada pelo escritor, se este escrevesse de um lugar para-além da busca inautêntica que lhe fornece o conteúdo, a história da degradação romanesca seria somente um fato diverso, banal. Alternativa essa que, todavia não procede, posto a ironia observada na obra, admitindo-se daí incontestável a autonomia do escritor a respeito dos seus personagens.

Quer dizer, a superação pelo escritor da degradação universal que rege o universo da criação imaginária constitutiva do romance não poder senão degradada, uma superação inautêntica, abstrata, conceitual e não vivenciada como realidade concreta. Por outras palavras, se a história da busca degradada permanece sempre a única possibilidade de exprimir as realidades essenciais é porque a ironia do romancista alcança não somente o herói, de quem ele conhece o caráter problemático[2], mas alcança também o caráter abstrato (por isso insuficiente e inautêntico) da sua própria consciência. Note-se que, por valores autênticos deve-se compreender não os valores que o crítico literário ou o leitor estimam ser autênticos, mas aqueles que, sem serem manifestamente presentes no romance, organizam pelo modo implícito o conjunto do seu universo simbólico, valores estes que são específicos de cada romance e são diferentes de um romance para outro. Portanto desde o ponto de vista estético-sociológico não se pode alcançar uma definição da forma romanesca sem compreender a ironia como afirmação da tomada de consciência do caráter inautêntico, não somente em relação à busca empreendida pelo herói, mas abrangendo toda a esperança ou toda a busca possível[3]. O romance aparece, então como um gênero literário em que os valores autênticos dos quais sempre trata não poderiam estar presentes na obra sob a forma de personagens conscientes ou de realidades concretas. Esses valores só existem sob uma forma abstrata e conceitual na consciência do romancista, onde revestem um caráter ético. Daí, considerando que as idéias abstratas não têm lugar numa obra literária romanesca, onde constituiriam um elemento heterogêneo, chega-se à formulação fundamental e conclusiva seguinte: tendo em conta aquilo que na consciência do romancista é abstrato e ético, o problema do romance é fazer disso o elemento essencial de uma obra onde tal realidade ética não pode existir a não ser sob o modo de uma ausência não tematizada ou de uma presença inautêntica. O romance revela-se desta forma o único gênero literário onde a ética do romancista torna-se um problema estético da obra[4].

Palavras Chaves: Produção para o mercado/ Reificação/ Redução ao implícito/ Coeficiente de realidade do indivíduo/ Busca romanesca degradada/ Mundo inautêntico/ Posição do escritor-romancista/ Problema estético/ Psicologia do personagem/ Caráter degradado/ Conteúdo essencial/ Ironia/ Homologia/ Estruturas reificacionais/ Estruturas romanescas/.

Categorias: Romance/ Caráter ético/ Individualismo/ Sociedade econômica/ Valores autênticos/ Estética sociológica/ Pesquisa sociológica/ Estruturas/ Psicossociologia/.

©2007 Jacob (J.) Lumier

jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br.



[1] Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs.

[2] O herói romanesco não aceita o mundo do conformismo e da convenção, mas não é capaz de abandonar a escala implícita de valores.

[3] Basta lembrar o exemplo do Don Quijote e a ironia de sua desistência nas cenas finais do romance.

[4] Cf. Goldmann, Lucien : : Pour une Sociologie du Roman , op. cit.



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CRISE DO ROMANCE E INDIVIDUALISMO:

A Estandardização como fator da Montage em T.W. Adorno[1].

Por

Jacob (J.) Lumier

A crise da objetividade literária, a impossibilidade de narrar algo especial e particular deve ser examinada como a supressão do objeto do romance em face da reportagem: o narrador romanesco não possui a experiência, as peripécias e as aventuras se generalizaram, já são conhecidas.

A crise de objetividade literária em face da descontextualização do romance realista do século XIX na época da modernização industrial tem sido estudada a partir da correspondência entre os temas socioafetivos da obra literária e os modelos intensamente presentes nos públicos receptores. Na sociologia da literatura admitiu-se que um aspecto dessa crise teria sido detectado pelos escritores de avant-garde na medida em suas obras exprimem não os valores realizados ou realizáveis, mas a ausência, a impossibilidade de formular ou perceber os valores aceitáveis em nome dos quais poderiam eles compor a crítica da sociedade. Admitiu-se igualmente que essa impossibilidade posta ao índivíduo, sobretudo após a catástrofe do século XX seria a transposição de um aspecto da grande transformação social e humana surgida com os mecanismos de auto-regulação da economia levando o indivíduo a uma passividade crescente (daí o destaque na literatura de avant-garde para a figura do voyeur). É o que autores como Lucien Goldmann estudaram sob o prisma da reificação como processus psicológico[2]. Entendeu-se que havia uma correlação sociológica direta entre a estrutura das sociedades econômicas sob o capitalismo organizado e o romance como gênero estético literário. A literatura teria alcançado uma objetividade bem diferente do realistas do século XIX como Balzac ou Stendhal. O novo romance do século XX se teria voltado para dar expressão a um estado penetrado pelo sentimento de ausência dos valores essenciais como elementos necessários à crítica social.

Por sua vez, apreciando a produção literária sob uma abordagem bem diferenciada e individualizada, T.W. Adorno[3] enfoca a questão da objetividade em arte e literatura de avant-garde sob vários aspectos além do tema da ausência, examinando-a sob a mirada do sociólogo, mas considerando-a no âmbito de uma filosofia antropológica e da respectiva problemática da desmitologização. Seu método leva em conta não somente a sociedade de mercado como caracterizada pela mediação[4], mas a concomitante separação relativa da ciência e da arte. Vale dizer, a separação relativa da ciência e da arte na modernidade é tomada em correlação com a coisificação do mundo que se gera na produção para o mercado de tal sorte que, por este via, exige como pré-condição a desmagização e a desmitologização da cultura para ser verificada como tal. Com essa separação, o domínio subjetivo das impressões passa por exclusividade da arte, por um lado, enquanto por outro lado tudo o que diz respeito à objetividade no conhecimento passa a pertencer à rede técnico-científica.

Em Proust a elaboração sobre a esperança e a desilusão constitui um conhecimento individual capaz de servir de fonte para a objetividade literária.

Todavia o desencantamento do mundo não é assim simples redução à coisificação e será possível reconhecer um elemento de objetividade literária para além de meras impressões que tampouco é captável na rede técnico-científica. Trata-se de certos conhecimentos acerca do homem e das conexões sociais que se pode reconhecer na elaboração poética de Proust como necessários e constritivos, cuja objetividade não pode ser reduzida à vaga plausibilidade, posto que é componente da experiência humana individual e se preserva nos casos limites dessa experiência, a saber: na esperança e na desilusão. São os conhecimentos individuais de um homem experimentado, tratados por Proust como uma série experimental ao pô-los em obra como experiências individuais suas e não passíveis de generalização. Daí se compreende que uma das fontes da objetividade literária é a consciência individual confiando em si mesma e não antecipadamente estreitada sob a censura do patamar organizado da vida social. No dizer de T.W.Adorno, em Proust se reconhece aquilo que nos dias do individualismo burguês tinha valor social como formando os conhecimentos de um homem experimentado[5].

A crítica da cultura se defronta ao fenômeno da standardização, o Sempre Igual da produção em massa como marca do mundo administrado em que se impõe a relação de comunicação social e se torna bloqueado o quid especial e particular indispensável à narrativa romanesca.

Estudando o deslocamento dos desafios originais do romance na sua forma contemporânea, T.W. Adorno toma como referência, além do realismo do século XIX (a crise do modelo típico), a maior incidência dos meios de comunicação e do jornalismo na produção literária, especialmente a absorção dos desafios ao romance realista pela reportagem como relato informativo e pelos demais meios da indústria cultural. Sobressai, então, através da leitura de Joyce, a contraposição do romance à ficção da informação (ficção no sentido de que as reportagens são editadas) na mesma medida em que se busca o individualismo no ponto de vista do narrador e na relação com o leitor, tornado receptor numa relação de comunicação social penetrada pelo paradoxo de que é impossível narrar enquanto a forma do romance exige narração. Para a produção literária, a identidade da experiência do sujeito foi destruída no século XX e a única atitude do narrador é de que a vida continua em si e articulada, qualquer narração posta como se o narrador fora o dono da experiência aparece como levando a suscitar a impaciência do receptor. Trata-se do que T.W.Adorno desenvolvendo a crítica da cultura atribuiu ao fenômeno da standardização, o Sempre Igual da produção em massa como marca do mundo administrado em que se impõe a relação de comunicação social e se torna bloqueado o quid especial e particular que o narrar significa. Daí a indispensabilidade da Critica da Cultura, sendo ilegítima a pretensão que leva a supor a interioridade do indivíduo como diretamente capaz de algo; daí também a justificação para a revolta de Joyce contra linguagem discursiva. A crise da objetividade literária, a impossibilidade de narrar algo especial e particular deve ser examinada como a supressão do objeto do romance em face da reportagem: o narrador romanesco não possui a experiência, as peripécias e as aventuras se generalizaram, já são conhecidas.

Do ponto de vista da fantasia, o fracionamento da frase em Joyce é fruto de sua mirada artística sobre o Hamlet de Shakespeare de tal sorte que sua revolta contra o discursivo se atribuiria ao procedimento artístico de composição do sonambulismo ou da linguagem sonambúlica.

Desta sorte, o primeiro passo é compreender a posição despossuída do narrador e isto se faz tomando como premissas (a) – que a informação e a ciência em sua permanência, sendo ligadas à indústria cultural, absorveram todos os conteúdos aos quais se podia associar o que é positivo e apreensível, incluindo a faticidade do que se experimenta como interno ao sujeito; (b) – que a este efeito da produção em massa corresponde o encobrimento, a ocultação do caráter inteligível, da essência: na standardização a superfície do processus vital social se vai estruturando mais densamente e recobrindo mais hermeticamente o caráter inteligível. Finalmente, T.W. Adorno sentencia: a auto-alienação como tendência histórica consiste em converter as qualidades humanas dos indivíduos em lubrificantes para o suave funcionamento da maquinaria.

Do ponto de vista da standardização, a questão do acesso à obra literária de avant-garde passa pela prevalência da interpretação sobre o princípio da satisfação pela fantasia e se impõe em modo diferenciado e autônomo, com as significações simbólicas envolvendo a própria fantasia, a exemplo do Ulysses de Joyce, em que a rebelião contra a linguagem conceitual conforma a fantasia.

Temos então que a sociologia literária de T.W. Adorno orienta-se para a busca do individualismo levando às seguintes constatações: (a) – de que no século XX o indivíduo como leitor ou receptor da narrativa literária encontra-se numa relação de comunicação social; (b) – de que o mundo da comunicação social, o mundo dessa relação emissor-receptor de significações simbólicas ou mensagens da indústria cultural, como esfera do mediatizado, é um mundo administrado que funciona a exemplo da maquinaria e que é percebido pelo indivíduo sob a censura da organização como a experiência do Sempre Igual; (c) – que a essa experiência classificada sociologicamente como standardização corresponde o indivíduo como incapaz de afirmar diretamente os valores humanos. Deste ponto de vista a questão de chegar ao valor estético da obra literária torna-se bastante complexa, não sendo mais admitido que o princípio de satisfação pela fantasia seja diretamente acessível. Cabe então à sociologia literária levar em conta que o valor estético como a qualidade pela qual a obra de literatura alcança os traços da nova sociedade nascente, como significação cultural, exige os procedimentos de mediatização em que se verifica a coisificação do mundo.

Desta sorte, juntamente com a prevalência da interpretação sobre o princípio da satisfação pela fantasia - até então especificidade do fato literário, sobretudo no aspecto da relação obra/público - passa a impor-se em modo diferenciado e autônomo, sem paralelo com o romance realista, a questão do acesso à obra literária de avant-garde. Verificamos então as significações simbólicas envolvendo a própria fantasia, a exemplo do Ulysses de Joyce, em que a rebelião contra a linguagem conceitual conforma a fantasia e não o contrário. Por um lado podemos observar as significações da própria fantasia permitindo chegar à compreensão provisória de que o fracionamento da frase em Joyce seja fruto de sua mirada artística sobre o Hamlet de Shakespeare e que, portanto aquela revolta contra o discursivo se deveria ao procedimento artístico de composição do sonambulismo ou da linguagem sonambúlica. Por outro lado a abordagem da sociologia literária de T.W. Adorno, sem embargo, torna então imprescindível que seja explicitado o caráter sociológico dessa linguagem sonambúlica como significação cultural, como penetrada pela mediatização, isto é significação produzida pela e na indústria cultural, significação de que se faz a montage, sendo confirmado que a rebelião contra a linguagem conceitual conforma a fantasia e não o contrário. Desta sorte, a reflexão estética passa a incluir a sociologia literária na medida em que, se exercendo sobre o futurismo como a perspectiva do mundo administrado, faz com que esta perspectiva seja desenvolvida como Crítica da Cultura, o que será conseguido, por sua vez, a partir da análise da fantasia futurista no “The Brave New World”, de Aldous Huxley, análise esta desenvolvida por T.W. Adorno no início dos anos de 1940 em termos de utopia negativa.

O mundo standardizado da comunicação social encontra a sua perspectiva no futurismo que, desideologizado, revela-se uma projeção da utopia negativa à luz da qual é possível chegar à significação cultural da literatura e arte de avant-garde.

Note-se para encerrar que essa orientação da reflexão estética para o exclusivamente mediatizado imprime um caráter específico ao estatuto da realidade solucionando o problema da crise de objetividade literária. Nos seus quadros, a realidade cuja montage ocupa a literatura e a arte de avant-garde só pode ser alcançada pelas significações produzidas pela e na indústria cultural e a cultura de massa, onde os gestos prevalecem sobre as palavras. Diferente do realismo literário do século XIX que valorizava a intermediação dos agrupamentos sociais e correntes da vida moral como qualidades da realidade a ser pintada, na Crítica da Cultura a realidade detectada, em montage, é aquela que, sendo produzida pela e na indústria da produção em massa, tem existência social no mundo administrado da comunicação social e se verifica como realidade coisista. Assim os quadros de referência tornados operativos na Crítica da Cultura já são igualmente produzidos e integrados no mundo administrado tomado por si e compreendem os gêneros de vida que correspondem e são identificados à indústria cultural. Para reconstituir tais quadros operativos ou categorias como aplicações da Crítica da Cultura devemos considerar o seguinte: (a) – que T.W. Adorno efetua a montage de sua Crítica da Cultura procedendo à desarticulação da ideologia do futurismo em vista de (b) – reaproveitar o futurismo assim desideologizado tornando-o operativo como perspectiva da reflexão estético-sociológica à medida em que o integra como projeção da utopia negativa.

Palavras Chaves: Objetividade literária/ realidade coisista/ montage/ supressão do objeto do romance/ reportagem/ interpretação/ significação cultural/ standardização/princípio de satisfação pela fantasia/ significações simbólicas/ Sempre Igual/ Desmitologização da cultura/.

Categorias: Estética sociológica/ Crítica da Cultura/ Futurismo/ Indústria Cultural/ coisificação/ Fantasia/ Significação cultural/ significações simbólicas/ valor estético.

©2007 Jacob (J.) Lumier

jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br.




[1] Renomado crítico da cultura do século vinte, Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, nascido em 11 Setembro 1903 em Frankfurt am Main e falecido em 6 Agosto 1969 em Visp, Suíça, foi um notável filósofo alemão, sociólogo, teorizador da música e compositor, com marcante presença no célebre Institute für Sozialforschung (Instituto para a Pesquisa Social) fundado nos anos vinte junto ao campus universitário de Frankfurt.

[2] Ver neste Website “O Romance, o Individualismo e a Reificação”.

[3] Ver Adorno, Theodor W.: Notas de Literatura, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ed. Ariel, 1962, 134 pp.

[4] O termo mediação ou mediatização, acentuando o primado do que é mediato (símbolo) sobre o i-mediato (simbolizado), é um termo introduzido na sociologia para dar conta da redução efetiva do mundo dos valores ao nível implícito e o desaparecimento destes como realidades manifestas diretamente apreendidas. Ver neste Website “O Romance, o Individualismo e a Reificação”.

[5] Ver Adorno, Theodor W.: Notas de Literatura, op. cit.





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Estruturas Econômicas e Gênero Romanesco

Por

Jacob (J.) Lumier

A sociologia do romance mais diretamente voltada para a arte e literatura de avant-garde ultrapassa a tentativa tradicional de mostrar que a biografia e a crônica social constitutivas do romance em sua fase mais antiga refletiam mais ou menos a sociedade da época. Admite-se a inovação pela qual se passa a investigar a relação entre a forma estética romanesca ela mesma e a estrutura do meio social no interior do qual ela se desenvolveu. Conforme já mencionamos, a hipótese desenvolvida por Lucien Goldmann a este respeito afirma que a forma romanesca é a transposição no plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista de produção para o mercado e que existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance, por um lado, e por outro lado a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e com os outros naquela sociedade. O esquema psicossociológico desta situação põe em relevo o advento do valor econômico de troca alterando as formas sociais pré-capitalistas em que a produção era conscientemente regida pelo consumo futuro, pelas qualidades concretas dos objetos, por seu valor de uso.

Na medida em que se verifica na sociedade produtora para o mercado, a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias tem lugar no exterior da consciência coletiva.

dizer, na relação cotidiana dos homens com os bens em geral e com os outros em uma sociedade individualista de produção para o mercado observa-se a supressão no plano da consciência dos homens da relação aos valores de uso, a qual no dizer de Lucien Goldmann passa por uma redução ao implícito por efeito da mediação do próprio valor de troca. Visando pôr em relevo que a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias tem lugar no exterior da consciência coletiva, esse autor faz uma comparação do comportamento econômico dos indivíduos em uma sociedade produtora para o mercado e nas outras formas de sociedade anteriores, dizendo-nos que nestas últimas a estrutura mental da mediação não é observável já que a economia é considerada natural. Quando um homem precisava de um vestimento ou ele o produzia ele-mesmo ou o demandava a um indivíduo capaz de produzi-lo, o qual, por sua vez, fosse em virtude de certas regras tradicionais, fosse por razões de autoridade ou de amizade ou ainda, fosse em contrapartida de certas prestações devia ou podia lhe fornecer tal vestimento. Por contra, nas sociedades de mercado, quando se quer obter um vestimento importa conseguir o dinheiro necessário a sua compra. Por exemplo: o produtor de roupas é indiferente aos valores de uso dos objetos que ele produz. A seus olhos estes não passam de um mal necessário para obter aquilo que unicamente lhe interessa: um valor de troca suficiente para assegurar a rentabilidade de sua empresa. Daí se nota a mediação como substitutivo de toda a relação ao aspecto qualitativo dos objetos e dos seres, caracterizando o predomínio da relação aos valores de troca, quantitativos. Nada obstante, é fato que tal substituição não suprime totalmente os valores de uso da consciência coletiva dos homens, dado este permitindo a Lucien Goldmann sublinhar que o caráter dos valores da vida econômica comporta um paralelo com o caráter dos valores perquiridos na forma romanesca, a saber: os valores de uso tomam um caráter implícito exatamente como o caráter dos valores autênticos no mundo do romance.

Mas não é tudo. Para acentuar tratar-se de uma homologia rigorosa, Lucien Goldmann toma por um fato principal de sua análise psicossociológica que, como consumidor último oposto no ato mesmo da troca aos produtores, todo o indivíduo na sociedade produtora para o mercado se encontra em certos momentos da jornada em situação de vislumbrar os valores de uso qualitativos que ele não pode alcançar a não ser pela mediação dos valores de troca. Se tivermos em consideração que os criadores no domínio da cultura são os indivíduos que permanecem orientados essencialmente para os valores de uso poderemos alcançar a evidência de que a criação do romance como gênero literário não tem coisa alguma de surpreendente. A respeito dessa situação são observados dois aspectos seguintes: (a) – se levarmos em conta que a vida econômica no plano consciente e manifesto se compõe de gente orientada exclusivamente para os valores de troca constataremos que os criadores de cultura, como indivíduos ligados à produção, por permanecerem orientados essencialmente para os valores de uso não somente se situam por isso à margem da sociedade, mas se tornam o que na sociologia de Goldmann se chama indivíduos problemáticos; (b) – nada obstante admite-se como ilusão romântica supor uma ruptura total entre a vida interior e a vida social, mesmo a respeito da situação desses indivíduos problemáticos já que, como criadores de cultura, não poderiam eles destacarem-se da degradação que sofre sua atividade criadora na sociedade produtora para o mercado, desde o momento em que essa atividade se manifesta exteriormente nos quadros, nos livros, no ensino, na composição musical, etc.as quais desta maneira passam a desfrutar de um certo prestígio, por via do qual adquirem um preço.

Quer dizer, a criação do romance, sua forma complexa ao extremo é a forma na qual vivem os homens os dias todos ao serem compelidos a buscar toda a qualidade, todo o valor de uso, por um modo inautêntico através da mediação da quantidade, do valor de troca. Complexidade esta acentuada pelo fato de que todo o esforço para se orientar diretamente aos valores de uso não engendra senão os indivíduos também como inautênticos, embora sob um modo diferente, que é o do indivíduo problemático. Para Goldmann essa análise psicossociológica esboçada prova que as duas estruturas – a do gênero romanesco e a da troca econômica competitiva – mostram-se tão rigorosamente homólogas que é possível falar de uma única e mesma estrutura que se manifestaria em dois planos diferentes.

Na sociologia do gênero romanesco, para saber como se faz a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias em uma sociedade em que esta ligação tem lugar no exterior da consciência coletiva deve-se observar a ação convergente de quatro fatores diferentes.

Mas não é tudo. Restam ao menos dois problemas importantes: o da sociologia da obra como veremos adiante que em Goldmann subordina-se à sociologia do conhecimento; e o problema específico da sua sociologia do gênero romanesco, que é o de saber como se faz a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias em uma sociedade em que esta ligação tem lugar no exterior da consciência coletiva. Em acordo com esse autor, devemos observar a ação convergente de quatro fatores diferentes. O primeiro fator põe em relevo que a categoria da mediação ao surgir no pensamento dos membros da sociedade burguesa traz consigo a tendência implícita a substituir esse pensamento por uma falsa consciência total, que Goldmann esclarece como sendo um modelo de orientação no qual o valor mediador se torna valor absoluto e onde o valor mediatizado desaparece inteiramente. Tendência-limite esta que se realizaria praticamente na propensão a fazer do dinheiro e do prestígio social os valores absolutos e não mais simples mediações dando acesso aos outros valores de caráter qualitativo. O segundo fator de ligação entre as estruturas homólogas é o que mencionamos há pouco, ou seja: a subsistência dos indivíduos tidos como problemáticos por exercerem um pensamento e um comportamento que permanece orientado para os valores qualitativos, sem que lhes seja facultado subtraírem-se à existência da mediação inautêntica cuja ação geral no conjunto da estrutura social-econômica a nova sociologia do romance põe em destaque. Assim se incluem dentre os indivíduos problemáticos todos os criadores, escritores, artistas, filósofos, teólogos, homens de ação, etc. cujo pensamento e comportamento são regidos antes de tudo pela qualidade de sua obra –embora como já o mencionamos não possam eles escapar inteiramente à ação do mercado e à acolhida da sociedade reificada. O terceiro fator compreende um aprofundamento envolvendo a situação dos romancistas em uma conjectura sobre a probabilidade do gênero romanesco. Inicialmente, Goldmann considera estabelecido que nenhuma obra importante pudera ser a expressão de uma experiência puramente individual. Daí a pesquisa para descobrir a atitude de um conjunto ou grupo social cuja subjetividade pudera haver segregado a energia para a criação cultural do gênero romanesco. Neste sentido, a conjectura goldmanniana afirma a probabilidade de um descontentamento afetivo não conceitualizado (ou não representado na percepção coletiva) seguinte: a ocorrência verificável de uma aspiração afetiva à mirada direta dos valores qualitativos que seria observada como se desenvolvendo seja no conjunto da sociedade burguesa, seja talvez unicamente entre as classes médias –sendo no interior destas últimas que são recrutados a maior parte dos romancistas.

Quanto ao quarto e último fator para a ligação entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias em uma sociedade em que esta ligação tem lugar no exterior da consciência coletiva deve-se levar em conta algumas observações sobre a origem do elemento de biografia que é constitutivo do romance e a contradição que o limita. Com efeito, o quarto fator da ligação entre as estruturas homólogas se observa não só em decorrência do fato (a) – de que a biografia individual no romance provém dos valores do individualismo liberal ligados às necessidades mesmas do mercado concorrencial (liberdade, igualdade, propriedade, tolerância, direitos do homem, desenvolvimento da personalidade, etc.); mas (b) – de que no desenvolvimento do romance tal categoria da biografia individual tomou a forma do indivíduo problemático a partir (b1) - não só da experiência pessoal dos indivíduos problemáticos distinguidos na vida da sociedade burguesa, mas (b2) - da própria contradição interna entre o individualismo como valor universal engendrado pela sociedade burguesa e as limitações importantes e peníveis que essa sociedade aportava em realidade ela mesma às possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos. Goldmann admite que o bom fundamento dessa hipótese sobre a ligação das duas estruturas homólogas é confirmado ao se considerar o paralelismo entre, por um lado, a transformação da vida econômica tal como notada no fim do século XIX e início do século XX pela substituição da economia de livre concorrência dando lugar a uma economia de cartéis e monopólios suprimindo a função do indivíduo, e, por outro lado, a transformação paralela da forma romanesca que desemboca na dissolução progressiva e no desaparecimento do personagem individual, do herói. De acordo com Goldmann, essa transformação no desenvolvimento da forma romanesca dá lugar (a) – às tentativas de substituição da biografia como conteúdo da forma romanesca pelas idéias de comunidade e de realidade coletiva (instituição, família, grupo social, revolução social, etc.); (b) – ao abandono de toda a tentativa de substituir o herói problemático e a biografia individual por uma outra realidade; (c) – ao esforço para escrever o romance da ausência do sujeito, afirmando a não existência de toda a busca que progressa.

Neste ponto, podemos destacar que a nova sociologia do romance baseada na conjectura goldmanianna das duas estruturas homólogas visa não só restabelecer a especificidade e autonomia da forma romanesca, mas seu estatuto particular e privilegiado em relação à classe burguesa. Deste ponto de vista e no dizer de Goldmann, o romance não é a simples transposição imaginária das estruturas conscientes de tal ou qual agrupamento social particular, mas exprime uma busca por valores autênticos que não é defendida em modo efetivo por grupo social algum. Esses valores autênticos são os que a vida econômica tende a tornar implícitos em todos os membros da sociedade. Da mesma maneira, esse entendimento de que a especificidade e autonomia da forma romanesca se põe em relevo pela análise sociológica de tal redução ao implícito, afirmada esta última ao longo de toda a exposição de Goldmann sobre a homologia das duas estruturas que se mostram ser dois planos de uma única estrutura, é um entendimento sustentando a convicção de que a literatura romanesca ao lado da criação poética moderna e da pintura contemporânea são formas autênticas de criação cultural sem que se possa amarrá-las à consciência, mesmo que seja somente a consciência possível de um grupo particular. Aliás, a nova sociologia vai mais longe admitindo que o romance com herói problemático se revela contrariando a opinião consagrada como uma forma literária ligada sem dúvida à história e ao desenvolvimento da classe burguesa, mas que não é a expressão da consciência real ou possível dessa classe.

Dessa maneira, Goldmann encaminha uma solução para o problema da sociologia do romance. Ao afirmar que se trata de uma forma ligada à história e ao desenvolvimento da classe burguesa está nos dizendo que essa classe social constitui o sujeito da criação cultural da forma romanesca, sendo a esse sujeito coletivo que em última instância é referido o conceito de estruturas homólogas como implicando uma relação inteligível. Há portanto um aprofundamento da pesquisa de correlações sociológicas estendendo-se ao fenômeno do todo do grupo social de tal sorte que em suas análises das obras romanescas Goldmann é levado a distanciar dois escritores da burguesia como Proust e Balzac já que o primeiro é compreendido na origem do tema da ausência como aprofundamento da forma romanesca, enquanto que a obra de Balzac é relacionada à consciência real e possível da classe burguesa. Nesta perspectiva, se há proximidade dos personagens de Balzac e Proust como remarcou Bernard de Fallois, haveria entre esses romancistas profunda diferença quanto ao modo de tratar a realidade.

©2007 Jacob (J.) Lumier

jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br.




SOCIOLOGIA E LITERATURA DE AVANT-GARDE:

O Tema da Ausência e a Presença de Proust.

Por

Jacob (J.) Lumier

A dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem deve-se ao fato de se viver numa sociedade onde o indivíduo já não é o valor predominante.

§ Sobre o problema da comunicação na sociologia da literatura de vanguarda.

Dentre os sociólogos que se dedicaram à sociologia da literatura é nos estudos de Lucien Goldmann que o problema da comunicação implicando na análise da correspondência entre os temas sócio-afetivos da obra literária e os modelos intensamente presentes nos públicos receptores ocupa um lugar de destaque. Seu estudo neste ramo centra-se nas obras do grupo dos autores de “avant-garde” nos anos de 1960 – reunindo Ionesco, Beckett, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet. A produção desses autores e grande parte da literatura européia depois de Kafka teriam por conteúdo essencial o tema da ausência, como a impossibilidade do essencial ou ausência de tudo o que poderia ser importante para a vida e a existência dos homens, tema este cujo estudo genético das diferentes modalidades e condicionamentos psíquico-sociológico se trata de empreender [1]. A crise da objetividade literária verificada com o esgotamento do romance realista do século XIX se reflete nos escritores de vanguarda que exprimiriam sobretudo não os valores realizados ou realizáveis, mas a impossibilidade em formular ou perceber valores aceitáveis em nome dos quais pudessem eles dar figura poética a uma crítica da sociedade. A evolução do romance moderno é notada na referência a esse tema da ausência desde o romance da angústia diante de um mundo absurdo e incompreensível expressado em Kafka, passando por La Nausée, de Sartre ou L’Étranger, de Camus, até os romances de Robbe-Grillet. Será analisando Les Gommes , Le Voyeur, e La Jalousie, deste último romancista, que Goldmann resume sua interpretação. Diz-nos que o caráter de voyer assumido progressivamente pelos indivíduos na sociedade industrial moderna constitui a grande transformação social e humana surgida do fenômeno do estabelecimento das auto-regulações da vida social e econômica bem como da passividade crescente no capitalismo administrado ou organizado, fenômenos esses que Goldmann chama reificação e examina como processus psicológico. Entretanto, para este sociólogo o tema da ausência tem origem em um romancista que não é considerado crítico como Marcel Proust, em cuja obra literária há um fragmento exemplar do que se tornou posteriormente o conteúdo essencial da literatura de avant-garde, a saber: um trecho da Primeira Parte (Combray) de Du Cotê de chez Swann.

O caráter de voyeur dos indivíduos na sociedade industrial liga-se às

auto-regulações do capitalismo organizado.


Com efeito, segundo Goldmann o fragmento de Combray que situa o tema da ausência é significativo porque, em sua interpretação comparativa do universo prousteano, configura a passagem do “mundo do tempo presente” - compreendendo a descrição do mundo a-temporal da presença total, o mundo da epopéia e da infância -, por um lado, para o “mundo do tempo perdido” - o mundo romanesco da sociedade parisiense -, por outro lado. Tal passagem originária de um mundo a-temporal para outro mundo temporal, pela qual Proust começa Combray, se faz através de uma caminhada que o narrador prousteano então criança percorre pela primeira vez, depois de sempre ter ido para os lados de Méséglise, na direção de Guermantes, cuja particularidade é deixar ver um rio conhecido por La Vivonne que leva ao exterior, para o mundo onde se desenrolará o restante do relato. É neste passeio, nesta caminhada do narrador que Goldmann situa o fragmento considerado exemplar da literatura de avant-garde, em que o tema da ausência estaria posto em relação ao olhar de uma jovem mulher observada furtivamente pelo narrador e vivendo em um sítio, designado por Goldamann como “sítio da ausência” a fim de pôr em relevo a situação de anonimato descrita pelo narrador ao nos dizer que a jovem mulher tinha perfil circunspeto, coberto por véus elegantes que não eram deste país e que ela teria vindo, “conforme a expressão popular”, se enterrar lá, desfrutar o prazer amargo de sentir que o seu nome, “sobretudo o nome daquele de quem ela não houvera conseguido preservar o coração, ali era desconhecido (...)”. Situação de anonimato esta cujo caráter intencional o narrador prousteano voyeur imagina em sua furtiva observação indiscreta igualmente anônima e velada, dizendo-nos que a jovem mulher desfrutava dessa situação quando erguia os olhos distraidamente ao ouvir por trás das árvores do riacho as vozes dos passantes, “de quem, antes que ela tivesse percebido seus rostos, ela podia ter a certeza de que jamais haviam conhecido nem conheceriam o infiel, de que coisa alguma no passado deles guardava sua marca; de que coisa alguma no porvir deles teria a ocasião de recebê-la”. E o narrador prousteano prossegue olhando-a sem ser visto retornar de algum passeio por algum caminho onde ela sabia que ele (o infiel) não passaria e descreve as impressões que sentiu vendo-a sem ser visto tirar das suas mãos resignadas longas luvas de uma graça inútil. Diz-nos sentir que no seu desprendimento ela havia voluntariamente trocado os lugares onde ela teria que perceber o mínimo daquele que ela amava por estes que jamais o haviam visto.

Entretanto, na sociologia de Goldmann o tema da ausência liga-se não só ao estudo dos personagens, mas sobretudo à análise dos gêneros literários, em especial à análise da ligação que o romance pode ter com a sociologia econômica e neste quadro, liga-se à análise da passagem do romance clássico ao novo romance do século XX. Buscando caracterizar a perspectiva do escritor nesse processus, a abordagem de Goldmann é a seguinte: (a) – se é certo que os hábitos psíquicos, as estruturas mentais e as categorias mentais antigas, persistindo na consciência da maior parte das gentes, impedem-nas de apreender a realidade nova; (b) – e se essa realidade nova é essencial na medida em que estrutura efetivamente a vida cotidiana, mesmo se muita gente disso não é consciente; (c) – seria muito imaginativo supor que, em face desta realidade nova, realidade essencial, só restasse ao escritor um simples deslocamento de interesse na direção dos setores surgidos com o correlativo esclarecimento dos antigos problemas de composição. Vale dizer, Goldmann se opõe ao argumento que pretende explicar a orientação de Joyce, Proust ou Kafka para setores da realidade mais finos ou mais sutis abrindo o caminho do novo romance em razão simplesmente de terem Balzac e Stendhal analisado a psicologia do personagem e, por este procedimento, terem generalizado e tornado banal o seu conhecimento, privando o personagem de interesse psicológico para os escritores posteriores. Segundo Goldmann, a acentuada dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem sem limitar-se ao anedótico ou ao fato diverso deve-se a que se vive numa sociedade em que o indivíduo como tal e implicitamente sua biografia e sua psicologia perderam toda a importância verdadeiramente primordial e foram deslocados para o plano da anedota e do fato diverso.

Palavras chaves: indivíduo / tema / realidade essencial / romance / avant-garde / reificação / Voyeur / personagem / ausência / anonimato /.

Categorias: literatura de vanguarda / Proust / Sociologia / Novo Romance / sociedade industrial / capitalismo organizado / Psicologia/ crise da objetividade literária / comunicação social /.



[1] Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs. / Structures mentales et création culturelle, Paris, Éditions Anthropos ,1970

O INDIVIDUALISMO EM PROUST

(INDIVIDUATION [1] e SOCIOLOGIA)

Por Jacob (J.) Lumier

As observações que se seguem foram elaboradas em vista de guiar a leitura da arte de Proust sob o aspecto da mediatização e no quadro da crise de objetividade literária, cujo exame teve início em obra anterior [2] .O interesse da sociologia no romance é o individualismo. No século XX os sociólogos acentuam que a dificuldade em descrever a biografia e a psicologia do personagem deve-se ao fato de se viver numa sociedade onde o indivíduo já não é o valor predominante.

Admite-se que para permanecer fiel à sua herança realista e continuar dizendo como são realmente as coisas, o romance teve que se afastar de um realismo voltado para reproduzir apenas a fachada e teve que promover o equívoco desta. Tarefa por sinal não estranha ao romance que desde o século XVIII com o Tom Jones, de Fielding, já encontrara seu verdadeiro objeto no conflito entre os homens vivos e as petrificadas (ou mumificadas) relações, de tal sorte que a própria alienação se converte assim para o romance em meio artístico (T.W. Adorno). Como se sabe em história literária, a ação dramática do romance esteve envolvida em uma técnica da ilusão que reservava previamente ao leitor o papel limitado de realizar algo já realizado e participar assim do caráter ilusório do conteúdo representado. Entretanto, simultaneamente à supressão do objeto do romance em face do gênero reportagem no século XX, implicando e alterando a posição do narrador que, por diferença do realismo literário do século XIX não mais possui a experiência do conteúdo a ser narrado, nota-se que o caráter ilusório vai sendo suprimido conforme se passe de Flaubert para Proust, Gide, Thomas Mann ou Musil e desemboque no que T.W. Adorno chama “reabsorção da distância estética”.

Desse modo vem a ser favorecida a prevalência da relação com o leitor por fora e em detrimento da união autor-personagem-leitor. Daí um tipo de romance cujo impulso é decifrar o enigma da vida externa (o autor literário que não mais possui a experiência do conteúdo evita a pretensão de que sabe exatamente “como foi”, exclui a “pretensão de conhecimento[3] . Tipo de romance este ao qual se aplica a asserção de que a alienação se converte em meio artístico, de tal sorte que a análise sociológica exige pôr em relevo, além da fantasia, a ambigüidade do romance como técnica de comunicação. Quer dizer, o aspecto da fantasia já não é acessível sem a mediação da técnica de comunicação. Neste sentido T.W. Adorno remarca que o avanço de Dostoyevski está em ter pressentido que o romance estava obrigado a romper com o positivo e apreensível e a assumir a representação da essência como das qualidades humanas, uma psicologia do caráter inteligível. Daí o surgimento de um narrador como homem no exercício experimental de suas recordações únicas. Daí também, dessa atitude experimental em literatura, em modo especial, um vínculo ao Iluminismo e à liberdade de pensamento que ultrapassa o Eu genérico do subjetivismo idealista legado do século XVIII [4]. Portanto, será o narrador como homem no exercício experimental de suas recordações únicas e por esta via não-generalizável vinculado ao Iluminismo e à liberdade de pensamento, que Adorno reencontrará em Proust. Se na arte deste se afirma a recordação pelo monólogo interior – recordação personificada em sua realidade humana pelo narrador prousteano ou mesmo para-além dele – se atualiza igualmente o dilettantismo: o modo de ser do homme de lettres como sujeito social de conhecimentos. Tal é o ponto de vista da recordação que além de experiência nãogeneralizável se exerce por um proceder experimental, por intenção tenteadora, a saber: a recordação na medida em que se experimenta como esperança ou desilusão fornece o critério que confirma ou refuta para si mesmo as observações do sujeito como indivíduo humano. Tal o caráter do monólogo interior na arte de Proust, caráter artístico criado pelo narrador prousteano como homem experimentado [5].

Neste sentido, o interesse sociológico na literatura do século XX aprofunda no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação. Daí o domínio conexo entre a estética-sociológica e as teorias metapsicológicas, já que à objetivação do humano nas estruturas corresponde o surgimento da subjetividade, a aspiração aos valores que resta em estado de aspiração, uma cultura que não se individualiza. Daí o simplescomo pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia [6], a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogênicos em face da realidade e frequentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas inconciliáveis para o sentimento de felicidade. Com efeito, em sociologia a busca da individuação na composição literária de avant-garde deve levar em conta a coisificação não somente como condição da ruptura libertadora, condição negativa, mas como a forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo, como o caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. O modelo da tradição do romance que vem do século XVIII, desde o Iluminismo, tendo por objeto o conflito entre o homem vivo e as petrificadas relações sociais, é uma referência limitada ao nível ideológico e, falta de crítica social, não atende à exigência de justiça poética, não evita colocar os personagens em injustiça pelo não reconhecimento ou pela descaracterização do perfil neurótico desempenhado. T.W. Adorno acentua a crítica social não só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo), porém equipara a crítica social ao conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

Nesse caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens, uma relação que se esqueceu de si mesma – forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo – a busca da individuação passa pela forma reflexa afirmando a falsa consciência que o homem tem de si mesmo e que é decorrente dos seus fundamentos econômicos. Essa falsa consciência configura por sua vez o homem coisificado não somente como uma realidade crítico-teórica, mas dá-lhe expressão como um homem obnubilado diante de si mesmo. Daí, finalmente, desse estado patético procede a figura recorrente na literatura de avant-garde do personagem neurótico como afirmação da individuação buscada no contexto da Standardização e da indústria cultural, o personagem com
alcance crítico e por isso com valor artístico positivo. De fato, se a justiça poética é uma noção reflexiva aplicável à utopia negativa como tema configurando o campo da arte e literatura de avant-garde e se vale para designar o modo pelo qual o autor, como artista, deve observar e aplicar a forma de objetivação na composição dos personagens, sua figuração da ataraxia (ou até mesmo da ancilose [7], como em “A Metamorfose”, de Kafka) ou a sua assimilação ou seu distanciamento para com a crítica social, então temos que a atitude efetiva assumida em face desse modo composicional ou dessa crítica social leva a distinguir um momento positivo e um momento negativo interpenetrados na utopia negativa. É o que T.W. Adorno nos sugere e suas análises esclarecem [8].

Mas não é tudo. Em suas múltiplas facetas, o domínio conexo entre a estética-sociológica e as teorias metapsicológicas pode ser assinalado igualmente no caráter estranhado da subjetividade daquele que ainda tem história apesar da fixação do Sempre Igual da produção em massa, caráter que se observa em certas formas de arte de avant-garde do século XX, como o surrealismo. Neste, se configura uma tensão entre esquizofrenia e coisificação marcando a individuation na era da modernidade e que se descarrega na catarse ou shock surrealista.

Sustenta T.W. Adorno que se as formações surrealistas têm analogia com o sonho em psicanálise por desarticularem a lógica habitual e as regras da existência empírica, todavia elas continuam respeitando as coisas isoladas, separadas violentamente umas das outras do mundo coisificado, continuam respeitando todos os seus conteúdos e até aproximam o humano à figura coisista. No sonho, o mundo coisista aparece incomparavelmente mais velado ou menos posto como realidade do que no surrealismo, que é a arte sacudindo a arte. Quer dizer, no surrealismo o sujeito atua muito mais abertamente e menos inibidamente aplicando suas energias em apagar-se a si mesmo, enquanto no sonho isso é feito sem necessidade de energia alguma. A diferença é que disso resulta tudo mais objetivo no surrealismo do que no sonho em psicanálise. Neste último o sujeito é ausente por antecipação e se ele dá cor e penetra em tudo o que ocorre o faz entre bastidores. Daí porque as associações dos conteúdos no surrealismo não sejam as mesmas que na psicanálise, embora ambos busquem a expressão involuntária. No surrealismo, onde se tem em vista a coisificação total que o remete totalmente a si mesmo e ao seu protesto, o sujeito dessa expressão involuntária e que dispõe livremente de si, tendo se desentendido de toda a consideração do mundo empírico, revela ser algo des-animado, desprovido do elemento anímico, mítico. T.W. Adorno sublinha haver uma dialética da liberdade subjetiva em situação de falta de liberdade objetiva de tal sorte que, nas imagens do surrealismo, o que se tem é o abandono pela sociedade burguesa da sua esperança na própria sobrevivência. Daí a aplicação ao conteúdo do surrealismo da frase atribuída ao Hegel de A Fenomenologia do Espírito segundo a qual “a única ação da liberdade geral é a aniquilação que não tem dimensão nem cumprimento interno algum” [9]. Segundo T.W. Adorno, esta frase que põe em relevo o sentido do “algo des-animado” caracterizando o sujeito da expressão involuntária como desprovido do elemento anímico ou mítico serve para explicar o alcance crítico do surrealismo.

Dessa forma não surpreende que por nossa vez tenhamos acentuado a interconexão metapsicológica da leitura de Proust neste nosso ensaio. Assim, sob o valor da notoriedade na relação de prestígio dos freqüentadores proustianos dos Salões parisienses, nos anos que precederam a década de Vinte, os autores afeitos à sociologia literária da vertente psicanalítica observam o que Theodor W. Adorno classificou de “um decisivo complexo”, designando o esnobismo como vontade de superar ou tornar sem importância o medo do tabu mediante o ingresso entre os iniciados [10]. Nas observações deste autor será com referência à percepção desse “decisivo complexo” que se pode constatar não só a aproximação de Kafka a Proust, mas um certo paralelismo entre, por um lado, estes dois grandes artistas-escritores, através notadamente do primeiro, e por outro lado o pensamento de Freud na obra “Totem e Tabu”.

Com efeito, T.W. Adorno sustentará a aplicação da noção de tabu de um rei tirada de Freud como imprescindível para compreender aquilo que em Kafka move aos homens para unirem-se com outros mais altos. Sua análise é suscitada pela questão de como chegar à interpretação do cosmos de Kafka e seu ponto de partida é a hipótese sobre o estatuto da linguagem nas obras deste, marcadas pela inversão da relação conceito/gesto, em que os gestos são resíduos, são os restos das experiências recobertas pelo significar: o gesto é “o assim é”, enquanto a língua “cuja configuração deve ser a verdade”, estando quebrada, é a não-verdade. Segundo T.W. Adorno é a lógica da perspectiva hierárquica em psicanálise que se verifica no esnobismo proustiano como complexo e em Kafka [11]. Mas não é tudo. Para caracterizar a orientação artística de Kafka em sua ligação com a psicanálise, T.W. Adorno nos oferece suas observações mais sociológicas sobre a atitude de Kafka em face do sofrimento, tomado este como estando cada vez mais submetido aos controles racionais do mundo da comunicação social.

De início, comparando com a orientação de Freud em que a psicanálise é voltada para “o desmascaramento do mundo aparencial” tendo em vista as entidades psíquicas como os atos falhos, os sonhos e os sintomas neuróticos – lembrando que dentre estes últimos se incluem os que acometem ao herói K ao crer que os vizinhos o estão observando desde as janelas ou ao ouvir ao telefone sua própria voz cantarolando – T.W. Adorno põe em relevo que em Kafka tais entidades psíquicas são tomadas como “o lixo da realidade”, os produtos do desperdício separados da sociedade evanescente pelo novo que se forma: tal o material único tomado por Kafka ao produzir sua arte. Quer dizer, como em toda a grande arte, a arte de Kafka “domina a ascese diante do futuro” sem esboçar todavia a imagem da sociedade nascente, mas “a monta com os produtos do desperdício”. Em vez de sanar a neurose, “Kafka busca nela mesma a força salvadora que é a do conhecimento”; “as feridas que a sociedade ocasiona ao indivíduo são lidas por este como cifras da não-verdade social, como negativo da verdade. Sua potência é potência da decomposição”. Ao desmantelar a decomposição arrancando a máscara conciliatória que recobre o desmesurado sofrimento submetido aos controles racionais, “o artista não se limita como o faz a Psicologia a ficar junto ao sujeito, mas penetra até o meramente existente detectado no fundo subjetivo com a caída da consciência ao perder toda a auto-afirmação”.

T.W. Adorno sugere a aplicação da abordagem de Kafka como exemplar à literatura que interpela a individuação burguesa, incluindo Proust e Joyce. Trata-se de subtrair a psicanálise para confrontar o especificamente psicológico notado na concepção que “faz derivar o indivíduo a partir de impulsos amorfos e difusos”, isto é faz derivar o Eu do Isto (Id) convertendo a pessoa de entidade substancial, de ser em vigência do anímico, em “mero princípio de organização de impulsos somáticos”. A via de Kafka seria voltada para reinventar a psicanálise, tratando a esta em uma série experimental em vista de verificar o que aconteceria se as asserções da mesma “fossem certas não metafórica e mentalmente, mas sim materialmente”, tomando-a mais ao pé da letra que a própria psicanálise, mas, desta forma, pecando contra a sua regra de simples desmascaramento do mundo aparencial, desmascaramento pelo qual a psicanálise “prova à cultura e à individuação burguesa sua mera aparência”. Daí a compreensão de T.W. Adorno equiparando a caída da consciência uma vez desprovida de auto-afirmação à caída do sujeito como engenho, lembrando a imagem de mônada leibntziana fechada, sem janelas, mas tomando-a como o foco irradiador da narra tiva de Kafka ou, no dizer mesmo de Adorno: “a mônada sem janelas prova ser lanterna mágica, mãe de todas as imagens, como em Proust e em Joyce”.

Acresce que, coerente com essa interpretação do foco da narrativa por monólogos irradiando-se de uma consciência-mônada, T.W. Adorno acentua as experiências desprovidas de normas que em Kafka circunscrevem a própria norma [12] como expressando o permanente déjà vu, que é o déjà vu de todos: o fim oculto da arte de Kafka é a disponibilidade, a tecnificação e a coletivização do déjà vu [13]. Finalmente, note-se que a interconexão meta psicológica neste nosso ensaio encontra-se igualmente afirmada na aproximação beckettiana sobre a obra de Proust. A conjectura estética essencial de Beckett para a memória involuntária de Proust, seu modelo de reduplicação alcançado pela e na experiência artístico-extática, afirmando como coerente a hipótese de um dado esquecido cristalizado na vida interior, tem respaldo na teoria metapsicológica de Alfred Adler [14], em que o modo pelo qual o indivíduo amolda seu caráter passa através de um mundo imaginário e belo no qual a vontade de finalidade pode restar indemne, conforme o desejo de precedência. De tal sorte que, nesta teoria metapsicológica afirmando o instinto do Eu é a tensão para o objetivo fictício fixado que toma o lugar da pulsão i-nata e saída das profundezas do ser que era a libido de Freud. Há uma trajetória pela qual o indivíduo constrói ele mesmo seu personagem com base em uma imagem ideal ou utilizando-se da comédia e da ficção. Vale dizer, o Eu, no plano do sentimento, efetua uma sorte de compensação pela ficção em tal maneira que a incerteza dolorosa em suportar é não só reduzida a sua mais simples expressão, porém, na seqüência, vem a ser transposta no seu pólo diametralmente oposto, o objetivo fictício, que se torna, então, o alvo de todos os anseios, de todos os sonhos e de todos os afetos.


©2007
Jacob (J.) Lumier

jacoblumier@leiturasjlumierautor.pro.br.



[1] Individuation = ce qui différencie un individu d'un autre, ce qui le constitue comme individu.

[2] Ver : Lumier, Jacob (J.): L’Utopie Négative dans La Sociologie de la Littérature: Articles au tour de Marcel Proust redigés en Portugais, Internet, E-Book, 133 págs.pdf,

http://www.lulu.com/content/900345 Op. cit.

[3] A pretensão de conhecimento o colocaria na ordem objetiva espacio-temporal onde predomina a coisificação, entendida esta como a outra face da desmitologização que se desenrola na base do processus de mediação próprio à sociedade de produção para o mercado. A separação irreversível da ciência e da arte está em correlação com a coisificação do mundo. Por isso, na sociologia crítica da cultura a análise da situação do romance do século XX leva à assertiva de que na transcendência estética se reflete o desencantamento do mundo.

[4] Ver Nota 01 dentre as Notas Complementares no final deste ensaio.

[5] Theodor W. Adorno: “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. Ver o artigo intitulado “Proust”. Op.Cit.

[6] No ensaio sobre “The Brave New World”, examinando o meramente existente detectado com a caída da consciência, T.W. Adorno desenvolve uma análise da des-subjetivação levando à ataraxia como subjetividade estacionária na fantasia futurista (regressão da aspiração a valores no indivíduo). É o esquema de uma des-subjetivação pura a que se identificam os sujeitos-objetos (a) – em sua incapacidade para perceber e pensar o que não é como eles mesmos; (b) - em sua auto-suficiência cega de sua própria existência; (c) – em sua imposição da pura utilidade subjetiva. Ver Lumier, Jacob (J.): Futurismo e Utopia Negativa na Crítica da Cultura: elaboração inicial para ler um texto de Theodor W. Adorno in L’utopie Negative dans La Sociologie de la Littérature: Articles au tour de Marcel Proust Redigés en Portugais, Internet, E-Book, 133 págs. pdf, págs.93 a 118, http://www.lulu.com/content/900345, Op.Cit.

[7] Segundo T.W. Adorno a redução da contraposição de espírito no sentido dos bens culturais da tradição, por um lado e, por outro lado a natureza como paisagem, imagem criação-sem-dominar mais além da sociedade, leva os homens à impossibilidade absoluta de movimentos, isto é à ancilose. Trata-se do entendimento diferente que o tema central da filosofia burguesa assume pelo tratamento do culto do instrumento tomado como separado de toda a destinação objetiva. Redução que corresponde a certas involuções já existentes no cotidiano da civilização técnica e da sociedade em regime avançado do capitalismo organizado que tendem a se converter em disposições com que a cultura de massa organiza o tempo livre para fazer deste um Standard do decoro infantil.

[8] Ver Lumier, Jacob (J.): Futurismo e Utopia Negativa na Crítica da Cultura: elaboração inicial para ler um texto de Theodor W. Adorno in L’utopie Negative dans La Sociologie de la Littérature: Articles au tour de Marcel Proust Redigés en Portugais, Internet, E-Book, 133 págs.pdf, págs.93 a 118, ibidem, http://www.lulu.com/content/900345 op cit.

[9] Cf. Adorno, Theodor. W.: “Notas de Literatura”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Editora Ariel, 1962, 134 pp., ver págs. 109 sq, ver citação de Hegel à pág.112. Ver também Lumier, Jacob (J.): Crítica da Cultura e Surrealismo: para além da Psicanálise, in L’Utopie Négative dans La Sociologie de la Littérature: Articles au tour de Marcel Proust redigés en Portugais, Internet, E-Book, 133 págs. pdf, págs.51 a 59, ibidem, http://www.lulu.com/content/900345. Op. Cit.

[10] Cf. Adorno, T.W.: “Prismas”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Arial, 1962, pág. 267, op.cit.

[11] T. W. Adorno destaca a observação de Freud sobre a distribuição das pequenas diferenças de força mágica do tabu que fazem invejar e que são menos temíveis que as grandes diferenças, sendo por esta forma que a hierarquia do tabu se estabelece, ou melhor, a hierarquia do medo do tabu de um rei. Assim o súdito que teme a grandiosa tentação do contato com o rei – o tabu deste é demasiado forte para o súdito por ser demasiado grande a diferença social entre ambos – pode suportar o rodeio através de um mediador próximo ao rei, tal como um ministro, ao qual não se sente movido a invejar tanto, configurando-se a hierarquia na medida em que o ministro, por sua parte, pode mitigar sua própria inveja do rei considerando o poder que ele próprio detém.

[12] Adorno dá-nos como exemplo significativo dessas experiências desprovidas a cena em uma grande cidade no momento em que um veículo se precipitou sobre um outro, quando “inúmeras testemunhas se acercam e se declaram conhecidos”.

[13] Cf. Adorno,T.W.: “Prismas”, tradução Manuel Sacristán, Barcelona, Arial, 1962, pág. 268,269.

***




O INDIVIDUALISMO EM PROUST

(INDIVIDUATION e SOCIOLOGIA)

Por Jacob (J.) Lumier

NOTAS COMPLEMENTARES

Nota 01:

SOBRE O PROBLEMA DO EU GENÉRICO EM CIÊNCIAS HUMANAS DESDE O PONTO DE VISTA DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO

– Antes de limitar-se à filosofia e à chamada Teoria do Conhecimento, à qual está ligado, o subjetivismo idealista (o Eu como representação de um valor transcendente) tem mais a ver em realidade com o problema do conhecimento coletivo dos Nós e do outro e se distingue por reduzir o conhecimento do outro ao conceito genérico da pessoa humana tomado como conceito idêntico para todos, do qual a interpretação neo-kantiana foi a expressão mais adequada.

O problema da teoria do conhecimento como problema crítico sobre a filosofia de Descartes tem um componente específico cuja análise tem desdobramentos para a formação do conceito fenomenológico da Consciência de si. Argumenta-se que a resposta cartesiana ao “que sou eu” é insuficiente por ser parcial. Mesmo se Descartes se houvesse plenamente compreendido ele - mesmo, ele não teria concebido mais do que uma parte da realidade humana, e seu sistema, fundado sobre essa auto-compreensão, seria necessariamente insuficiente e falso, por não alcançar a totalidade. Além disso, sua resposta “eu sou um ser pensante” era não somente muito sumária, mas ainda falsa porque unilateral. Ao partir do “eu penso” Descartes fixou sua atenção apenas sobre o “penso”, negligenciando completamente o “Eu”. Ora, sendo esse “Eu” essencial tem lugar uma formulação na qual nos é dito que o Homem não é somente um ser que pensa, um ser que revela o Ser por meio do Logos, pelo Discurso formado de vocábulos tendo um sentido. O homem revela ainda — igualmente por um Discurso — o ser que revela o Ser, o ser que ele é ele mesmo, o ser revelador que ele opõe ao ser revelado, lhe atribuindo o nome de “Ich”, de “Selbst” (Moi). Nesse esquema, é admitido não haver existência humana sem Consciência do mundo exterior, que está ao nível do “penso”. Todavia, o que o ponto de vista do “Eu essencial” (Selbst) aporta ao problema crítico sobre a filosofia de Descartes é a convicção de que, para haver verdadeiramente existência humana, portanto, que possa vir a ser uma existência filosófica, é preciso que nisso haja ainda consciência de si. E para que aí haja consciência de si, é preciso que haja o Eu: esta certa coisa especificamente humana, que o homem revela, que se revela, quando o homem diz: “Eu”... .

Dessa forma, antes de proceder à teoria kantiana do conhecimento, imbricada no “Je pense”; antes de analisar a relação entre o sujeito (consciente) e o objeto (concebido), é preciso então se perguntar o que é esse “sujeito” que se revela no e pelo “Eu” do “Eu penso”. Há que se indagar quando, por que e como o homem é levado a dizer: “Je”... .

A análise esclarece que a consciência previamente requerida pela teoria do conhecimento se identifica na revelação do Ser pela Palavra, ou pelo único vocábulo Ser. Posteriormente, é esse Ser que será chamado mais tarde “ser objetivo, exterior, não-humano, Mundo, Natureza, etc.”. Todavia, no estádio dessa formulação do Eu essencial, esse Ser é ainda neutro, posto que aí não há ainda consciência de si, e, por conseqüência, não há ainda oposição entre sujeito e objeto, Moi e non-Moi, entre o humano e o natural. Em nível do conhecimento do Ser e de sua revelação pela Palavra, se estuda a forma mais elementar da consciência, que Hegel nomeia “Certeza sensível”, sendo que, a partir desta consciência, ou deste conhecimento, não há meio algum de chegar à consciência de si. Vale dizer que esse conhecimento é contemplativo e a revelação do Ser pela palavra é passiva, deixando o Ser tal qual ele é em si, isto é, independentemente do conhecimento que o revela. Note-se que a formulação do Eu essencial (Selbst) leva à descoberta da contemplação como atitude em perspectiva na negligência cartesiana do Eu. A reflexão agora se vê na contingência de descrever algumas formulações críticas sobre a contemplação, a fim de esclarecer essa mudança de plano, pela qual a noção de uma existência verdadeiramente humana foi anteposta à resposta cartesiana para a questão do “que suis je”, tida assim por insuficiente. (Ver, Lumier, Jacob (J): Philosophie à la Lumière de la Communication Sociale: Réflexion Sur la Lecture de Hegel Rédigée en Portugais. Internet, E-Book, 2007 (Ensaio, 126 págs.) http://www.lulu.com/content/856648 ).

Em realidade, o subjetivismo idealista foi favorecido pela classe burguesa. Aliás, o conhecimento filosófico favorecido pela classe burguesa compreende a combinação de racionalismo e de voluntarismo em DESCARTES, de racionalismo e empirismo em BACON, e as filosofias do Século das Luzes, como marcas indiscutíveis da classe burguesa. Nesta classe o conhecimento de senso comum não conta e não passa do ambiente familiar. O mesmo vale para o conhecimento de outro, que se reduz ao conceito genérico da pessoa humana, conceito idêntico para todos.

Sem embargo, em relação à classe burguesa observa-se como se sabe vários papéis desempenhados segundo as conjunturas particulares e as épocas, sobretudo o papel de vanguarda revolucionária, primeiro e o papel de classe moderadora e conciliadora, por etapas. Deve-se remarcar a distinção de uma consciência de classe otimista da burguesia, observada em períodos anteriores à sua degenerescência no capitalismo dirigista da primeira parte do século XX, a qual era caracterizada pela confiança em um progresso técnico e econômico ilimitado; pela confiança na harmonia dos interesses de todos, na universalidade dos benefícios do capitalismo e da civilização urbana. Dessa maneira, nota-se a consciência aberta como fenômeno de classe ocorrente no estrato mais afortunado da burguesia em sua época de desenvolvimento, no século XIX, quando pontificava a figura dos “grandes patrões”: bons organizadores e calculadores, além de empresários clarividentes, generosos e filantropos, consciência aberta esta que se contrasta com a consciência coletiva da classe camponesa, redobrada sobre si.. Portanto, será do ponto de vista dessa consciência de classe burguesa que pretendia prestar-se para a difusão universal atraída que estava pela mais racional e a menos emotiva das ideologias de classe que se empreende o estudo do sistema cognitivo da classe burguesa considerada como sede propícia do saber.

De fato, a chegada ao poder da classe burguesa no século XVIII, trouxe como mudança em permanência alcançando o interior das estruturas, que a sociedade industrial passa a experimentar uma união entre conhecimento científico da natureza e o conhecimento técnico. Até então, antes da chegada ao poder da burguesia, com a sociedade industrial ainda em seus começos, no século XVII, nota-se que essa mesma sociedade se inclinava para desenvolver-se fora das ciências, diretamente nas fábricas e nas práticas de trabalho que elas suscitavam. O saber burguês situando o mundo exterior como correspondendo às perspectivas da expansão econômica e da evolução da técnica, tiveram a ver com a conquista de novos mercados, notadamente os coloniais; com a busca de mão de obra e das riquezas naturais , tais como os minerais, o petróleo, o carvão, etc.; e, finalmente, com a colocação nova dos capitais e com as organizações industriais nacionais e internacionais, incluindo os trustes e cartéis. Ademais esse conhecimento do mundo exterior próprio da classe burguesa assimila os padrões quantitativos do “tempo é dinheiro” ajustando-se sem dificuldade graças à intervenção dos meios de comunicação qualidade essa que se combina aos tempos identificados à circulação dos capitais e aos investimentos, ao ciclo da produtividade das empresas, à duração do trabalho e do comércio.

O conhecimento político da classe burguesa ocupa um grau menos elevado do que o conhecimento científico, o conhecimento técnico e o do mundo exterior, que são interpenetrados. Sabe-se que a classe burguesa sempre manifestou, desde sua formação no século XVII até os anos atuais, um conhecimento político muito eficaz, como tática e como afirmação de um ideal, que se cristalizou em doutrinas elaboradas - desde HOBBES, SPINOZA, ROUSSEAU, até o neoliberalismo e o solidarismo dos finais do século XIX. Todavia, a característica do conhecimento político da burguesia é ter sido capaz de manter-se moderado até as primeiras décadas do século XX. Para isso apoiou-se nos mitos da paz, da igualdade de possibilidades, do progresso técnico ilimitado, da igualdade dos interesses de todos e, por fim, o mito da abundância, os quais, embora invocados com prudência e reserva, mostram o valor da redução do conhecimento do outro ao conceito genérico da pessoa humana tomado como conceito idêntico para todos, de que se nutre o subjetivismo idealista. Esse conhecimento político moderado deve-se a que a burguesia sempre tratou de evitar comprometer-se, mantendo-se como agente político circunspecto, já que, finalmente, sempre teve mais a perder que a ganhar em toda a crise ou revolução, temendo perder seus bens e, assim, sua existência mesma. Em suma, a burguesia está sempre disposta aos arranjos e, no possível às concessões, fazendo-se facilmente reservada e conservadora onde seus interesses econômicos não estejam gravemente ameaçados e onde não se questiona sua existência.

Deve-se observar para compreender a expressão intelectual dessa mentalidade que será a formação de grupos de interesse na Renascença prolongando-se em disputas políticas no Ancien Régime que possibilitará o surgimento e a a elaboração das doutrinas políticas modernas – começando na Inglaterra, com Thomas MORUS (“Utopia”, 1516) e Francis BACON (“Nova Atlântida”, inconclusa). Posteriormente, nos séculos XVII E XVIII, serão os escritos de HOBBES e LOCKE que correspondem às aspirações da burguesia ascendente, como quadro social do conhecimento, que, finalmente, só então triunfará. Na França: os fisiocratas, os enciclopedistas, TURGOT, J.J.ROUSSEAU, terão influência desde o começo e durante a revolução, e suas doutrinas tratam tanto do fim ideal quanto da tática a empregar para alcançá-lo, tipificando o conhecimento político formulado ou elaborado. Na Holanda: o “Tratado Político” (1675-1677) de SPINOZA já faz pressentir segundo os estudiosos “certos elementos do pensamento de ROUSSEAU”.

A sociologia do conhecimento nas sociedades globais que dão à luz o capitalismo nos mostra um ambiente muito novo e imprevisto impulsionado como é sabido pelo advento do começo do capitalismo e do maquinismo; pelo descobrimento do Novo Mundo; pela política absolutista de nivelação dos interesses, pela afluência das grandes massas da população às cidades, etc. Daí que o conhecimento de senso comum que servirá à classe burguesa em formação se encontre disperso em vários meios, seguintes: (a) – entre os cortesãos, os representantes da nobreza de espada e os da nobreza de toga; (b) - nos diferentes grupos da burguesia, no novo exército profissional, entre os marinheiros, etc., ou ainda, entre os operários da fábrica. Seu refúgio será, então, a vida rural e os círculos restritos da família doméstica conjugal. GURVITCH nos lembra a observação de DESCARTES de que o senso comum é “a mais compartilhada” das faculdades, avaliando que o mestre do racionalismo moderno resistia desta maneira à tentação de negar a existência mesma dessa classe de conhecimento, “provavelmente pressionado pelas contradições crescentes entre os diversos beneficiários do conhecimento de senso comum” (Ver Lumier, Jacob (J.): Aspectos da Sociologia do Conhecimento: Reflexão em torno às análises sociológicas de Georges Gurvitch, Ensaio, 239 págs., e-book, 2005,Internet http://www.leiturasjlumierautor.pro.br/).

No último lugar desse sistema cognitivo das sociedades globais que dão à luz o capitalismo, vem o conhecimento de outro e dos Nós que: 1) - como o conhecimento de senso comum, também se encontra em grande dispersão pelos diferentes meios relacionados com a atualização da sociabilidade das massas, com a política de nivelação do absolutismo e com a desintegração dos grupos herdados da sociedade feudal, estando em nítida regressãoa identificação do conhecimento dos Nós ao “espírito de corpo”. 2) - Todavia, GURVITCH observa que se nota um novo conhecimento de outro, servindo de compensação parcial para o rebaixamento desse mesmo conhecimento de outro como de indivíduos concretos, lembrando-nos que, tanto na classe proletária nascente como na classe burguesa ascendente, ambas penetradas da ideologia de competição e de produção econômica, o conhecimento de outro é quase nulo. Nosso autor acrescenta que nesse novo conhecimento de outro se trata de uma tendência para universalizar a pessoa humana que se relaciona a ROUSSEAU, com sua teoria da Vontade Geral idêntica em todos, e a KANT, este, com seu conceito de “Consciência Transcendental” e de “Razão Prática”, que chega à afirmação da “mesma dignidade moral” em todos os homens. Quer dizer, tem-se um conceito geral do outro fora de toda a concreção, de toda a individualização efetiva, acentuando-se as formas racional, conceitual, especulativa e simbólica, com tendência frustrada a reunir o coletivo e o individual no geral ou no universal. (Ver Lumier, Jacob (J.): Leitura da Teoria de Comunicação Social desde o ponto de vista da Sociologia do Conhecimento– as tecnologias da informação, as sociedades e a perspectivação sociológica do conhecimento, Ensaio, 338 págs., e-book, 2007, Internet, On Line, http://www.oei.es/salactsi/lumniertexto.pdf). Aliás, aqui fala-se de um novo conhecimento de outro em referência à época moderna. Na época clássica, a tendência da sociedade não-estatal a dissolver-se numa poeira de indivíduos isolados torna muito limitado o conhecimento de outro e dos Nós no âmbito dos grupos de filósofos organizados em liceus e academias, de sorte que era um conhecimento de outro mais apto apenas para captar nos demais a generalidade que a individualidade concreta, tendência à generalidade essa que é muito nítida em Sócrates e em seus adversários, os sofistas, os quais como já observou G.Gurvitch se interessam pouco pelo homem como indivíduo específico e diferente de seus semelhantes, e mais como representante indiferenciado e genérico da humanidade racional em geral. Neste sentido o estruturalismo de Claude Levy-Strauss mostra-se equivocado. Sua afirmação da “existência de um estruturalismo lógico universal na base de toda a sociedade” não passa de projeção da idéia de uma consciência transcendental e universal implicando a aceitação do preconceito filosófico do século XVIII, indevidamente transposto na Teoria Sociológica. Segundo Georges Gurvitch, Levy-Strauss “parece crer que o fato de subscrever-se ao juízo de Paul Ricoeur que qualifica seu pensamento de ‘kantismo sem sujeito transcendental’ vá fortalecer sua posição, esquecendo que, para KANT, não podia haver oposição entre ‘sujeito transcendental’ e ‘consciência transcendental’, reconhecida como idêntica para todos” (cf. Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289pp -1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1966 – ver págs.145/6).

Sob este aspecto, em Karl Popper, por sua vez, podemos assinalar orientação crítica ao neokantismo semelhante à de Gurvitch, com a compreensão de que, no dizer de Popper, “a idéia de KANT de um tipo padrão de intuição pura compartilhada por todos nós (...) dificilmente pode ser aceita” (cf. Popper, Karl: ‘Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária’, tradução Milton Amado, São Paulo/Belo Horizonte, EDUSP/editora Itatiaia, 1975, 394 pp., traduzido da edição inglesa corrigida de 1973 – 1ªedição em Inglês: Londres, Oxford University Press, 1972 – ver pág. 34).

***

Nota 02:

SOBRE O VALOR FICTÍCIO DA MEMÓRIA INVOLUNTÁRIA EM PROUST E O PROBLEMA DO INSTITNTO DO EU

Em benefício do pensamento artístico de Proust, a conjectura beckettiana suscitada pela intervenção da memória involuntária afirmando que em certo momento a alma total só tem valor fictício, não sendo nunca inteiramente realizável, pode ser cotejada com certa orientação teórica, notada nos meios psiquiátricos, que desenvolve uma psicologia ou metapsicologia eminentemente individual na qual, em maneira semelhante, o indivíduo é tomado como se defrontando ao vasto campo caótico que é sua alma – como se lê em Alfred Adler : “Der Nervose Charakter” , de 1922, citada por Ernst Bloch em “Le Principe Espérance –Vol I ” (Paris, Gallimard, 1976) e por este considerada uma teoria válida. Nesta teoria é reservado à ficção um lugar significativo na afirmação instintiva do Eu (em Francês “Moi”) exatamente em face desse campo caótico que é sua alma e que na conjectura mencionada está afirmado na impossibilidade de realização para a alma total. O valor fictício é então examinado como o componente do esforço instintivo do Eu listrando tal campo caótico com linhas diretivas incessantemente ativas que tomam a forma dos traços de caráter. Trata-se da vontade de finalidade a qual, no mesmo modo em que pode ser largamente inconsciente afirma-se sobretudo “naive”. Há pois uma trajetória pela qual o indivíduo constrói ele mesmo seu personagem com base em uma imagem ideal ou utilizando-se da comédia e da ficção. O Eu, no plano do sentimento, efetua portanto uma sorte de compensação pela ficção em tal maneira que a incerteza dolorosa em suportar é não só reduzida a sua mais simples expressão, porém, na seqüência, vem a ser transposta no seu pólo diametralmente oposto, o objetivo fictício, que se torna, então, o alvo de todos os anseios, de todos os sonhos e de todos os afetos. O modo pelo qual o indivíduo amolda seu caráter passa então através de um mundo imaginário e belo no qual a vontade de finalidade pode restar indemne, conforme o desejo de precedência. Finalmente, nesta teoria metapsicológica afirmando o instinto do Eu é a tensão para o objetivo fictício fixado que toma o lugar da pulsão inata e saída das profundezas do ser que era a libido de Freud.

©2007 Jacob (J.) Lumier

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