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quarta-feira, 25 de junho de 2008

PARA COMPREENDER O DIVERTIMENTO

PARA COMPREENDER O DIVERTIMENTO

Na Crítica da Cultura o entretenimento é um capítulo especial. Em sua análise e desmontagem da ideologia do futurismo (Theodor W. Adorno: “Prismas: la Critica de la Cultura y la Sociedad”, tradução de Manuel Sacristán, Barcelona, Ariel, 1962, 292 pp. Ver o ensaio “Aldous Huxley y la Utopia”, páginas 99 a 125. (Original em Alemão: Prismen. Kulturkritik und Gesellschaft. Berlin, Frankfurt A.M. 1955), Theodor W. Adorno nos oferece uma linha de reflexão crítica que estabelece o quadro de referência para a boa compreensão sociológica.

Inicialmente, deve-se distinguir a atitude da grande burguesia ao afirmar soberanamente que defende a sobrevivência da economia do lucro não por interesse próprio, mas por todos os homens; porque “se eles não tivessem que trabalhar tanto como têm não saberiam o que fazer com o tempo livre”.

Trata-se de uma sabedoria de frieza que carece de conteúdo cognitivo por coisificar não o mundo, mas os homens, tomando-os como dados exteriores na medida mesmo em que, por colocá-lo muito acima da condição humana, deifica nessa relação cognitiva o observador como instância livre.

Dessa mesma sabedoria fria releva a ficção do futuro, releva o caráter fictício da preocupação com “a desgraça que poderia infringir ao homem a utopia realizada ao desaparecerem do mundo a fome e a ansiedade”.

Por sua vez, essa ficção do futuro esconde uma trans-posição aos que ainda estão por nascer da culpa pelos males do presente, esconde o dogma do sempre foi assim e sempre será igual em que se resume a crença de que: como o homem está manchado pelo pecado original e não é portanto capaz de Bem suficiente na Terra, a mesma melhoria do mundo se deforma em pecado.

Em segundo lugar, mais além da desmontagem da ideologia como sabedoria de frieza, haverá que distinguir a desarticulação de certas idéias interligadas tais como a “objetividade da satisfação”.

Preservada na postura que repele a “falsa necessidade” e que traz consigo a montagem de uma série de separações impostas em torno da esfera da satisfação das necessidades, a idéia da “objetividade da satisfação” recobre a ânsia de estabelecer a todo o custo a falsa separação maior entre necessidades materiais e necessidades ideais.

O equivoca desta montagem decorre da orientação idealista que, (a) – pretendendo repelir a neutralização da cultura separada do processo material de produção, tal como ocorre na cultura de massa com suas necessidades imaginárias, (b) – tenta colocar como correção uma esfera superior de cultura.

Assim procedendo, (c) – agasalha um conceito de “necessidade invariável”, em molde biológico e supra-histórico, (d) – compreendendo neste conceito a intensificação e o refinamento da consciência ou ampliação do conhecimento, na trilha da substituição da felicidade pelo Bem supremo.

Por contra, mas na direção dessa aspiração à valorização da cultura, Theodor W. Adorno remarca, confirmando sua orientação crítica, que, estando toda a necessidade humana mediada em sua concreta manifestação, o aspecto estático das necessidades -- sua fixação na reprodução do Sempre Igual, bem como a interpenetração de “necessidade autêntica” e “necessidade falsa” -- é algo que corresponde a uma fase da produção material, a qual assumiu um caráter estacionário devido às restrições sobre o mercado e sobre a concorrência.

No momento em que, prossegue Theodor W. Adorno, a produção se ponha ilimitadamente ao serviço da satisfação das necessidades, inclusive daquelas produzidas pelo sistema da indústria cultural, “as próprias necessidades se transformarão decisivamente".

(...), “ficará claro um dia que os homens não necessitam das pequenas ilusões que lhes subministra a indústria cultural” (...); “a idéia de que o cinema, por exemplo, é necessário para a reprodução da força de trabalho ao mesmo título em que o é a habitação e a alimentação não é verdadeira senão em um mundo que dispõe os homens exclusivamente para a reprodução da força de trabalho e impõe sobre suas necessidades a harmonia com o interesse da oferta de produtos e com os controles racionais”.

Segundo Theodor W. Adorno é um equívoco imaginar que, em uma nova sociedade, tal compulsão à satisfação das necessidades (isto é, tal necessidade de produzir para as necessidades harmonizadas) possa permanecer atuando em corrente.

Portanto, é sobre esse espírito praticista impondo a adaptação das necessidades, ou silenciando as necessidades ainda não satisfeitas pela sociedade como algo inútil, que se faz a crítica, que se põe em relevo como não tendo sido questionado na fantasia futurista, em sua orientação idealista ao preservar a idéia da objetividade da satisfação.

Artigo-comentário elaborado por Jacob (J.) Lumier


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Leia mais:

FUTURISMO E UTOPIA NEGATIVA NA CRÍTICA DA CULTURA

por Jacob (J.) Lumier


O DIVERTIMENTO COMO MODO DE PRODUÇÃO

Por Eugênio Bucci em 24/6/2008 no Observatório da Imprensa


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