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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Utopia Negativa

BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales

A UTOPIA NEGATIVA: LEITURAS DE SOCIOLOGIA DA LITERATURA

Jacob J. Lumier

ISBN-13: 978-84-693-6125-2
Nº Registro: 10/89770

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ÍNDICE



APRESENTAÇÃO
Introdução
A INDIVIDUAÇÃO
Individuação e Dialética
SOCIOLOGIA, LITERATURA E FANTASIA
O Sobre os critérios do fato literário e As condições de uma sociologia da literatura
O problema das relações com
A sociologia do conhecimento
Comunicação e Valor Literário
INDIVIDUALISMO E REIFICAÇÃO
Coeficiente de realidade do indivíduo
A Reificação
A Ironia
ESTRUTURAS ECONÔMICAS E GÊNERO ROMANESCO
A Redução ao Implícito
Indivíduos Problemáticos
A Ausência do Sujeito
CRÍTICA DA CULTURA E SURREALISMO
A "Montage" Surrealista
A Ruína da Cidade
CRISE DO ROMANCE E INDIVIDUALISMO
A Coisificação do Mundo
Interpretação e Fantasia
DOSTOIEVSKI, PROUST, KAFKA
Reflexão Estética e Crítica da Cultura
L'homme de lettres
Consciência Alienada
Reflexão estética e objeto literário
A Análise Personalista
O Monólogo de Camus
A Fantasia
A imagem do Homo Absurdus e Dostoyevski
A Carência de Contato
Os Personagens Suportes
O Mínimo dos Suportes em Kafka
FUTURISMO E UTOPIA NEGATIVA NA CRÍTICA DA CULTURA
Ideologia do Futurismo
A Limitação Ideológica da Concepção do Futuro
A Satisfação das Necessidades
O Sempre Igual e a Contradição da Coisificação
Futurismo e Ansiedade
O Praticismo
A Subjetividade da Utopia negativa
O Complexo de Impotência
Impotência e Condicionamento
Standardização e Ataraxia
A Função da Ataraxia
Fungibilidade
Justiça Poética e Crítica Social
A Função Utópica da Crítica Social
O TEMA DA AUSÊNCIA E A PRESENÇA DE PROUST
Comunicação e avant-garde

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A MULHER EM PROUST







A MULHER EM PROUST
(Notas de Leitura)

por

Jacob (J.) Lumier

Uma mulher e o mar. Visão e tragédia de Albertine Ensaio minúsculo sobre as cinco cenas figurativas em que a mulher adquira figura literária trágica como objeto do desejo na arte romanesca de Marcel Proust.

Cena 1: Cena do primeiro contato no balneário de Balbec - a multiplicidade pictórica de Albertine convertendo-se em uma multiplicidade plástica. A visão de Albertine antes e depois do primeiro contato se altera muito mais do que um simples efeito do ângulo de enfoque do observador, desembocando em um tumulto de contradições objetivas e imanentes sobre as quais o sujeito (narrador proustiano) carece de controle. O narrador vê Albertine pela primeira vez incorporada ao brilho do pequeno bando de moças em bicicletas contrastadas pelo mar. Grupo pictórico este que, em sua adoração invejosa, o narrador simbolizará nas Bacantes. Albertine lhe parece carecer de individualidade e, nessa imaginação pictórica, está como envolta em um casulo: “uma crisálida delicada e quase abstrata” em tal modo que “só o mistério do bando orgiástico de Bacantes” envolvendo-a num “cerco de rosas que rompe as linhas das ondas” é a única imagem válida e que permanecerá nas referências posteriores do narrador.

Cena 2: Em outro dia ela o fita na praia. Frase desse relato retrospectivo escrita pelo narrador então já fascinado pelo desejo de possuí-la e pressentindo a impossibilidade desse sentimento: “soube que não possuiria a jovem ciclista se não conseguisse possuir o que havia em seus olhos” - ele ainda não consegue vê-la dissociada do mistério das bacantes em bicicleta.

Cena 3: O contato com ela lhe é proporcionado pelo pintor Elstir que lha apresenta, e ele “começa a conhecê-la através de uma série de subterfúgios” em que cada fragmento de sua fantasia e seu desejo é substituído por um conceito bastante menos preciso. Criar-se-á então a Albertine da multiplicidade plástica, cujas expressões são equiparáveis a um caleidoscópio. Empenha-se em observá-la em todas as oportunidades. Observa-a nas relações dela com Mme. Bontemps; nas primeiras ambigüidades entre ele e ela; no reflexo de um luar em seu queixo; na maneira em que emprega o advérbio ‘perfeitamente’ no lugar de ‘inteiramente’; na inflamação no canto de seu olho interferindo nas suas feições e, dessas observações, encontra a aparência dela como a passar da superfície mansa e polida a “um estado quase fluido de alegria translúcida, uma congestão febril”. Quando ousou seu primeiro gesto impreciso de aproximação é repelido com frieza, levando-o a concluir que, em modo contrário à sua fantasiosa hipótese inicial de ser ela a possível amante de um corredor ciclista ou de um campeão de box, Albertine era honesta e fora falsa sua apreciação sobre o caráter dela.


Cena 4: Todavia essa impressão cambiará. A tragédia de Albertine se complica alterando o estado do narrador nas relações entre ele e ela em Paris, marcado por certa perplexidade em face da própria incapacidade dele para encontrar um denominador comum interligando a nova Albertine ou a nova multiplicidade dessa nova Albertine agora tomada em seus braços. A configuração poética já não tem apenas uma base visual, fosse pictórica ou plástica. O objeto do desejo que ela parece simbolizar, a mulher e o mar, acentuando no plano espiritual o prazer desfrutado dos favores dela, sofisticada, para ele já iniciada, esse objeto ou esse composto, através do hábito dela, leva a formar um segundo composto, desta vez com os ciúmes. De fato, a simbolização de Balbec e seu mar através do hábito de Albertine vem a ser restituída como amálgama do humano e do marinho em um estímulo do coração exatamente através dos ciúmes. A visão de Albertine espantando o narrador e escapando a toda a composição de unidade mostra não só a Albertine de sua imaginação, a apaixonada e irreal da praia; a Albertine real e virginal aparentemente, revelada a ele no final de sua estadia em Balbec; Mas também lhe mostra esta terceira Albertine que, no dizer de Beckett, “cumpre a promessa da primeira na realidade da segunda”.


Cena 5: Mas essa nova Albertine é múltipla e o narrador vê claramente a dificuldade em viver com ela, melhor: vê a ameaça aos seus sentimentos. Tanto que, depois de sua primeira visita à Princesa de Guermantes, quando sentado em seu quarto esperando-a que não chega, sente como esta “não chegada” exalta uma simples irritação física convertendo-se em chama de angústia espiritual. Muito mais que o ouvido ou a mente, o narrador é todo o coração ao atentar para os passos dela ou para a chamada sublime do telefone. Destaca-se ainda a necessidade, a carência com que o narrador relacionou o consolo outrora obtido pelo carinho de sua mãe à esperada chegada de Albertine, causando-lhe ademais uma inquietação suplementar a consciência de haver visto nesta Albertine comum “uma fonte de consolo e salvação que milagre algum poderia substituir”. Tal a impressão da impossibilidade em possuir o outro que então o narrador formula na seguinte frase: “só se ama aquilo que não se possui, só se ama aquilo no qual se busca o inacessível”. Será a este e a outros semelhantes pensamentos do narrador que, como veremos, Beckett se refere ao afirmar que... Em Proust, o amor é uma função da tristeza, comportando o sentimento de que nessa matéria não há escolha ruim, posto que o fato mesmo de que tenha havido uma escolha implica que tenha sido ruim!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Política e Literatura



A aspiração aos valores como afirmação do caráter político na Leitura sociológica da obra literária de James Joyce.

Nas análises de Ernst Bloch a arte e a literatura de avant-garde são apreciadas desde o ponto de vista dos materiais e procedimentos de composição em vista de equacionar o problema da objetividade. Paralelamente aos críticos da cultura, Ernst Bloch dá prioridade ao expressionismo autêntico e ao surrealismo, vê a experiência da individuação na modernidade como penetrada pela coisificação, porém, diferente de T.W. Adorno relaciona a montage ao sonho.



Não que Ernst Bloch se contraponha ao existencialismo ou dê acolhida aos chamados freudismos do surrealismo. Pelo contrário. A seu ver, as teorias psicológicas desvalorizam a objetividade em arte. Os elementos de sonho que Ernst Bloch aborda ultrapassam ou não se limitam a uma aplicação do inconsciente pecaminoso da psicanálise. Em suas análises, os surrealistas buscavam originalmente um só objetivo que era o de introduzir os elementos de decomposição nos interstícios do mundo deste tempo de modernização, sendo a esses elementos que se aplica a palavra sonho.
Tais elementos não são restritos à vida anímica dos indivíduos, mas, integrando a realidade estética da cultura – realidade aberta – são passíveis de serem inseridos artisticamente nos interstícios do mundo contemporâneo (que inclui a coisificação), exatamente como elementos intrínsecos e fatores endógenos da sua própria decomposição.
Daí a utilização de Kafka como termo de comparação em torno de um esforço comum de verificação simbólica e de busca de um mais-além no surrealismo e na literatura de avant-garde.
Vale dizer, como o filme mudo que aporta simultaneamente um monte de coisas inúteis e sonho, nas fontes do surrealismo se distinguem os aspectos esotéricos dos símbolos que não conduzem mais para um mundo mais-além, e somente encarnam pressentimentos arcaicos e utópicos que estão imbricados nas porosidades do mundo contemporâneo que é o deste tempo.

A compreensão estético-sociológica do surrealismo e da literatura de avant-garde busca a montage de um espaço contemporâneo fissurado.

Na obra de Ernst Bloch, que é um pensador da utopia positiva com suas categorias crítico-históricas em molde teológico imbricadas na efetividade da interpenetração do arcaico e do histórico na consciência coletiva, a reflexão da criação poética começa pela constatação do vazio cultural na situação da distração disseminada com a modernização acelerada nos anos Vinte.
Desse modo, caracteriza-se em reflexão de filosofia estética o que os sociólogos chamam fatiga do simbolismo social e que para o nosso autor, atento à dicotomia das formas de vida rural-tradicional e urbano-moderna, exige constatar a ocorrência de símbolos esotéricos, fechados, obscuros .
Por este tornarem-se opacos dos símbolos sociais, observa-se que, com a arte de Kafka, ressurge em feitio estranho a diferenciação e a confusão entre um mundo absorvido na realidade histórica, por um lado e, por outro lado, um mundo até então situado no mais-além.
Em estado de mundo absorvido, nota-se o reflexo de antigos interditos, de antigas leis e de velhos demônios da ordem, como que a fluírem nas águas subterrâneas dos pecados e dos sonhos pré-israelitas que afloram à superfície nos períodos de decadência.
No espaço do mundo até então situado no mais-além, observado nos romances de Kafka como Le Chateau ou Le Procés, destaca-se a forma durável de uma mitologia de dependências insuperáveis, de ordens estamentais estranhas e longínquas que jamais alguém pode examinar.
Para Ernst Bloch, essa distinção em dois níveis na realidade histórica da consciência coletiva no período da decadência da cultura burguesa , revela respectivamente que raramente neste mundo deste tempo os sentimentos do medo e da piedade foram tão estritamente reaproximados, sendo a esta confusão de medo e piedade que se buscam os elementos de decomposição que são ao mesmo tempo os elementos do sonho e aos quais se refere a compreensão poético-sociológica do surrealismo e da literatura de avant-garde ou que lhe é afim, como configurações de um espaço contemporâneo fissurado.

Como a imagem surrealista de um tumor crescendo no vazio, a busca de materiais estéticos em meio à confusão de medo e piedade configura um esforço poético de construção onírica, bem notado em Julien Green, Marcel Proust, James Joyce.

Lembrando a imagem surrealista de um tumor crescendo no vazio, se remarca que, com essa busca de materiais artísticos em meio à confusão de medo e piedade, trata-se de um esforço poético de construção onírica.
Segundo Ernst Bloch, esse esforço poético pode ser bem notado em escritores como Julien Green – elaborando a construção onírica da vida sufocante e morna que se conserva de parte – ou Marcel Proust, elaborando a construção onírica da memória na hora ampliada da agonia como o objetivo de toda uma vida; ou ainda, James Joyce, elaborando por sua vez a construção onírica da montage, onde se reencontram as ruínas do presente.
Não se deve deixar de notar, entretanto que, por detrás dos afundamentos recortados nessas construções oníricas há o envolvimento pela obscuridade do vazio cultural no período de decadência da cultura liberal e do individualismo – de que a confusão dos sentimentos de medo e piedade dá repercussão.
De acordo com os comentários de Ernst Bloch , o espaço contemporâneo fissurado que é pintado nas metáforas de Julien Green corresponde a um Eu de quem o medo se apossou e que é torturado por seus sonhos. Todavia, é também o espaço de uma ação desprovida, tornada inteiramente reduzida a indivíduos privados de toda a comunidade, seres humanos estúpidos como as bestas que, porém, se tornam grandes como os afrescos ou como as paisagens, pois cada um dentre eles representa uma paixão.
Então, só há paixões solitárias, só há, seduzindo, o destino disfarçado desta paixão. Não há saída alguma. A sedução, o enfeitiçamento é compacto e suga inteiramente seus suportes humanos. Nesse espaço contemporâneo pintado poeticamente por Julien Green reina um odor de folhas mortas, cheira a cômodos trancados cujos ocupantes parecem jamais sair.
Quanto ao espaço contemporâneo fissurado em Proust, em virtude da finesse e da micrologia em sua mirada que a tudo recolhe, parece mais saliente o que Ernst Bloch chama sonho no objeto, designando a qualidade poética ou o foco irradiador das imagens e das metáforas literárias.
Em Proust, compõe-se um espaço cujas imagens só se desdobram aprés-coup, em seus mosaicos não-euclidianos da agonia; um espaço curvo acima de um Eu que vê decorrer a sua própria vida e a vida exterior; um Eu que apreende com extrema acuidade o que está perdido; que põe por escrito a caída de um mundo em declínio: caleidoscópio de grandes damas, belos senhores, aventureiros: les héros du déluge.
Tudo parece real nesse espaço proustiano, e tudo contém os interstícios onde se aninham as metáforas. Destaca Ernst Bloch que são metáforas tiradas de esferas decaídas, sejam estas as mesas dos restaurantes, sejam os planetas como o sol – designado a suntuosa e milenar múmia desembaraçada de todas as suas ataduras -, nas quais a regra da vida social virou liturgia.
Nesse espaço contemporâneo proustiano, a personalidade é desagregada em “inumeráveis Eu” que não sabem coisa alguma uns dos outros, mas cujos mundos se recortam.
Quanto ao comentário de Ernst Bloch sobre o espaço contemporâneo fissurado em Joyce, sobressai de início a imagem surrealista de uma boca sem Eu, em meio à decomposição que atinge a própria língua, desprovida esta de toda a forma pronta e acabada, logo, aberta e confusa.
As palavras estão em disfunções, perderam sua inserção ao serviço do sentido. O que de ordinário fala, o suposto sujeito que faz de narrador, brinca com as palavras em momentos de fatiga, nos silêncios da conversação ou no falar sem dizer dos seres sonhadores e instáveis que povoam a suposta narrativa.
Segundo Ernst Bloch, deve-se apreciar a montage no "Ulysse", de Joyce, como um work in progress: simultaneamente atelier e criação. Atelier que, porém, não está acima, mas também faz parte da decomposição.
Vale dizer, a língua observa as regras gramaticais, mas não segue em absoluto as regras da lógica do seu tempo. Na montage no "Ulysse" de Joyce a língua tanto se recorta como um copo quebrado em pedaços, tanto se cristaliza como em um caleidoscópio em movimento, ou circunda estreitando a ação no feitio das cintas.
A compreensão que se tem da língua na narrativa de Joyce é de que ela deve ter sua origem na relação primária, sonora e imaginada; que ela deve ter seu sentido na liberação e na captação da vida inconsciente. É isto o que desperta a língua para a vida: as palavras recobrindo seu valor pré-lógico.

Sem dúvida, como já remarcou Georges Lukacs em seus ensaios sobre Thomas Mann, a atitude de Ernst Bloch para com a obra de James Joyce é de apreciação admirada. Tanto é assim que, priorizando em arte o resgate onírico da antiga cultura e da Escolástica medieval, Ernst Bloch minimiza qualquer postura prévia na leitura de Joyce.

Deste ponto de vista, se quisermos compreender o sintoma e o símbolo que se considera como representando a obra joyceana, pouco importa saber se Joyce obteve êxito, se a sua empresa de embrutecimento dos personagens tivera jamais alcançado o enlevo do poema; pouco importa se em maneira geral é Joyce um autor sério ou o mercador de uma não-idéia impensável, nebulosa da rememoração burguesa da terra após a morte da terra, após uma catástrofe cósmica.
Segundo Ernst Bloch, tampouco é importante saber se "Ulysse" confirma ao menos a lógica de um mundo decaído e opaco, mesmo sem projetar no porvir a luz de uma reviravolta transparente.
Com certeza, o estilo de Joyce em "Ulysse" corresponde a um mundo sem controle, e acolhe como fermento a desagregação, que se compõe de início como a desagregação do Eu no monólogo interior, e depois, como a desagregação da coerência burguesa dos objetos.
Aliás, na apreciação crítica segundo Ernst Bloch, deve-se sublinhar a particularidade do monólogo em Joyce, que não mais deixa intacta e reconhecível a pessoa na permanência do Eu.
Quer dizer, nas anteriores composições do monólogo em outros autores a pessoa conservava ainda muitas coerências de superfície perfeitamente conscientes, muitas coberturas morais. Em Joyce pelo contrário: aqui a pessoa deixou de ter inclusive o Eu como testemunha.

Continuação:

Literatura e Política


Leia mais sobre sociologia da literatura teclando nos links abaixo:

As condições de uma sociologia da literatura


A sociologia da literatura nas relações humanas


Utopia negativa e Monólogo


Sobre a Crítica da Cultura

domingo, 3 de maio de 2009

Sociologia da Literatura e Crítica da Cultura

Na leitura de Ernst Bloch observamos que a análise da contradição contemporânea do século XX põe em relevo a aspiração ao homem completo como a forma de "alguma coisa que falta" e que se descobre na esperança histórico-filosófica. Sobressai igualmente a pesquisa do "concretamente utópico" constatado nas superestruturas da intensa modernização e acelerado crescimento industrial dos anos vinte na Alemanha.



Essas linhas aportam luzes não só para a sociologia da literatura, mas, particularmente, favorece a compreensão do romance como forma literária específica do mundo moderno, notadamente em relação à produção de avant-garde.

Como se sabe, o romance corresponde ao desenvolvimento da sociedade burguesa e do mundo capitalista na medida em que põe em obra a "história de uma busca", uma aspiração implicando uma biografia individual. Por sua vez, o imenso progresso da forma romanesca no século XIX constitui um indicativo seguro do fenômeno superestrutural da reificação, notado inclusive no plano da composição, onde a biografia individual nutrida de aspiração enseja a forma romanesca exatamente não só porque deve necessariamente decepcionar, mas porque segrega as razões de sua degradação em crônica social.

A forma romanesca tem sua vertente no romantismo do século XVIII-XIX. Sociólogos notáveis como Lucien Goldmann recorrem à classificação histórico-literária de Goethe para situar em termos ideais o marco do avanço da forma romanesca no fim de um idealizado "período poético", onde o criador se sentia ainda em acordo com a sociedade, onde a arte e a literatura passavam por ser uma criação natural – concepção esta atribuída a Frederico Schiller, igualmente defensor da chamada "poesia histórica".

Vale dizer, a forma romanesca nos escritores como Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Malraux, Thomas Mann, Pasternak, etc., estes já no século XX, os permitiu colocar em obra ao mesmo tempo o problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário e descrever a essência deste mundo inóspito .

A compreensão sociológica do romance em nível de superestruturas assenta-se em dois campos de pesquisa, seguintes: (a) – pesquisar o romance como o único gênero literário no qual a ética do romancista torna-se um problema estético da obra; (b) – pesquisar a relação entre a forma romanesca ela mesma e a estrutura social na ambiência da qual se desenvolveu, isto é, as correlações do gênero romance com a sociedade individualista moderna (Cf. Goldmann, Lucien: "Recherches Dialectiques", "Sociologie du Roman").

Nesta postagem relacionamos os enlaces de sociologia da literatura com os artigos que elaboramos.

Links de sociologia da literatura

=Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Sociologia da Literatura – I: Leitura de Proust: Uma Abordagem Inspirada por Samuel Beckett.

http://jl-praxis.blogspot.com/2008/02/sociologia-da-literatura-i-leitura-de.html

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=Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

A UTOPIA NEGATIVA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA: ARTIGOS EM TORNO DE MARCEL PROUST REDIGIDOS EM PORTUGUÊS.

http://jl-praxis.blogspot.com/2008/02/utopia-negativa-na-sociologia-da.html

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=mardi 26 février 2008

PSICOLOGIA E FANTASIA NA SOCIOLOGIA DA LITERATURA

http://jl-cogitatio.blogspot.com/2008/02/psicologia-e-fantasia-na-sociologia-da.html

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=mardi 4 mars 2008

PARA COMPREENDER A CRÍTICA DA CULTURA

http://jl-cogitatio.blogspot.com/2008/03/para-compreender-crtica-da-cultura.html

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=vendredi 7 mars 2008

Servirá Camus para o estudo do suicídio? Notas sobre a análise crítica de Nathalie Sarraute.

http://jl-cogitatio.blogspot.com/2008/03/servir-camus-para-o-estudo-do-suicdio.html

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=vendredi 7 mars 2008

PERSPECTIVA HIERÁRQUICA E INDIVIDUAÇÃO: Linhas mínimas sobre Kafka, Proust e a psicanálise na Crítica da Cultura de Theodor W. Adorno.

http://jl-cogitatio.blogspot.com/2008/03/perspectiva-hierrquica-e-individuao.html

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=Novembro 9 de 2008

LITERATURA E POLÍTICA NO SÉCULO VINTE: a aspiração aos valores como afirmação do caráter político na Leitura sociológica da obra literária de James Joyce.

http://leiturasociologica.wordpress.com/literatura-e-politica-no-seculo-vinte-a-aspiracao-aos-valores-como-afirmacao-do-carater-politico-na-leitura-sociologica-da-obra-literaria-de-james-joyce/#comments

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=Dezembro 12, 2008 at 11:51 am

Literatura e Política – II: o tabu de um rei (Linhas mínimas sobre Kafka, Proust e o freudismo na Crítica da Cultura burguesa).

http://leiturasociologica.wordpress.com/2008/12/12/literatura-e-politica-%E2%80%93-ii-o-tabu-de-um-rei-linhas-minimas-sobre-kafka-proust-e-o-freudismo-na-critica-da-cultura-burguesa/

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=Domingo, 11 de Maio de 2008

LITERATURA, SOCIOLOGIA E POLÍTICA: sobre a imagem da Odisséia.

http://sociologia-jl.blogspot.com/2008/05/literatura-sociologia-e-poltica-sobre.html

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=Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

A Crítica Social

http://sociologia-jl.blogspot.com/2009/01/crtica-social.html

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=lunes 12 de mayo de 2008

A CONCEPÇÃO DA OBRA LITERÁRIA EM JOYCE E A IMAGEM DA ODISSÉIA.

http://xilibris.blogspot.com/2008/05/concepo-da-obra-literria-em-joyce-e.html

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=Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

SOCIOLOGIA, LITERATURA E FANTASIA: Os critérios do fato literário e as condições de uma sociologia da literatura.

http://sociologia-jl.blogspot.com/2008_05_01_archive.html


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=Setembro 03 de 2008

A SOCIOLOGIA DA LITERATURA NAS RELAÇÕES HUMANAS: Comentários em torno ao problema da apreensão do desejado.

http://leiturasociologica.wordpress.com/a-sociologia-da-literatura-nas-relacoes-humanas/

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=20 de Abril de 2007

SOBRE O VALOR FICTÍCIO DA MEMÓRIA INVOLUNTÁRIA EM PROUST E O PROBLEMA DO INSTITNTO DO EU

http://sociologia-jl.blogspot.com/2007/04/view-blog-top-tags.html



terça-feira, 17 de março de 2009

Forma Romanesca, Reificação, Ideologia do Existente.


A forma romanesca tem sua vertente no romantismo, tanto que sociólogos notáveis como Lucien Goldmann recorrem à classificação de Goethe para situar o marco do avanço da forma romanesca no fim do período poético.

Na leitura de Ernst Bloch[1] observamos que a análise da contradição contemporânea põe em relevo a aspiração ao homem completo como a forma de alguma coisa que falta e que se descobre na esperança histórico-filosófica. Sobressai igualmente a pesquisa do concretamente utópico constatado nas superestruturas da intensa modernização e acelerado crescimento industrial dos anos vinte na Alemanha. Essas linhas aportam luzes não só para a sociologia da literatura, mas, particularmente, favorece a compreensão do romance como forma literária específica do mundo moderno, notadamente em relação à produção de avant-garde.

O romance corresponde ao desenvolvimento da sociedade burguesa e do mundo capitalista na medida em que põe em obra a história de uma busca, uma aspiração implicando uma biografia individual. Todavia, como se sabe, o imenso progresso da forma romanesca no século XIX constitui um indicativo seguro do fenômeno superestrutural da reificação, notado inclusive no plano da composição, onde a biografia individual nutrida de aspiração enseja a forma romanesca exatamente não só porque deve necessariamente decepcionar, mas porque segrega as razões de sua degradação em crônica social.

Com efeito, a forma romanesca tem sua vertente no romantismo, tanto que sociólogos notáveis como Lucien Goldmann recorrem à classificação de Goethe para situar o marco do avanço da forma romanesca no fim do período poético, onde o criador se sentia ainda em acordo com a sociedade, onde a arte e a literatura passavam por ser uma criação natural – concepção esta atribuída ao notável poeta romântico do século XVIII Schiller [2], igualmente defensor da poesia histórica.

Vale dizer, a forma romanesca nos escritores como Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Malraux, Thomas Mann, Pasternak, etc., estes já no século XX, os permitiu colocar em obra ao mesmo tempo o problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário e descrever a essência deste mundo inóspito[3].

A compreensão sociológica do romance em nível de superestruturas assenta-se em dois campos de pesquisa, seguintes: (a) – pesquisar o romance como o único gênero literário no qual a ética do romancista torna-se um problema estético da obra; (b) – pesquisar a relação entre a forma romanesca ela mesma e a estrutura social na ambiência da qual se desenvolveu, isto é, as correlações do gênero romance com a sociedade individualista moderna [4]·.

Admitindo que valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elementos essenciais de uma obra artística literária como o romance.

Afirma-se inicialmente a compreensão de que a literatura romanesca se desenvolve com relativa autonomia tanto em relação à consciência real quanto à consciência possível de um agrupamento social particular. Isto porque houvera uma transposição direta da vida econômica nessa criação literária. Ademais, do ponto de vista da relativa autonomia, se constataria igualmente nas sociedades de mercado uma modificação significativa do estatuto das consciências individual e coletiva. Em modo implícito, essa modificação se estenderia ao campo sociológico das relações entre infra e superestruturas, de tal sorte que os paralelismos entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias romanescas teriam lugar no exterior da consciência coletiva [5].

Desta forma, aprofundando no individualismo e elaborando para além do âmbito de toda a comunicação social, a teoria psicossociológica de Lucien Goldmann pauta-se na pesquisa daquela "modificação radical" nos níveis superestruturais.

Admitindo que valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elementos essenciais de uma obra artística literária como o romance.

Indagação esta procedente na medida em que as idéias abstratas não têm lugar em uma obra artística literária, onde constituiriam elemento heterogêneo, só podendo ser afirmadas, entretanto, sob o modo de uma ausência não temática, ou presença degradada.

Com efeito, para esta pesquisa dá-se prioridade exclusiva à situação dos escritores que buscam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal, tendo por base o próprio contexto de crise do individualismo, que marca a segunda metade do século XIX.

Admite-se uma distinção fundamental entre a obra propriamente literária e os escritos conceituais. Quer dizer, a possibilidade para o escritor fazer obra literária, criar universos imaginários concretos com mirada realista revela-se estreitamente ligada à certeza de sua aspiração, à fé em valores humanos afirmados como universalmente acessíveis a todos os homens.

Por sua vez, os escritos conceituais revelam-se corresponder pelo contrário à ausência de fé na aspiração assumida, seja sob a forma da desilusão ou de uma "elite criadora" [6].

***

A teoria Psicossociológica e o Individualismo

O tema da pressão da ação, implicando a imposição de fins e objetivos no mundo, constitui o aspecto central da situação psicossociológica dos escritores burgueses engajados em pôr em obra literária romanesca uma visão individualista.

Podemos então observar que, ao afirmar a percepção diferencial da certeza de uma aspiração criadora na base da obra literária, a teoria psicossociológica de Lucien Goldmann reconhece o elemento postulativo histórico-filosófico de que nos falou Ernst Bloch.

Por outras palavras, a afirmação da fé na aspiração assumida, como critério diferencial na teoria psicossociológica de Lucien Goldmann, deve ser relacionada à noção de utopia positiva ou esperança utópica, já que revela em sentido amplo a compreensão do foco criador constitutivo dos valores ideais humanos como vontade de paraíso, à qual Ernst Bloch referiu "o retorno do mais antigo sonho (atividade onírica indormida)".

Não que este paralelo sirva simplesmente para indicar afinidades intelectuais. É mais do que isto. Com efeito, ao diferenciar a vontade de paraíso na acessibilidade dos valores qualitativos, Ernst Bloch configura a mirada que traz um aprofundamento do fenômeno da reificação e viabiliza em nível de postulado a observação e descrição da realidade crítica mais contundente para o individualismo.

Ou seja, a mirada da vontade de paraíso, por seu alcance histórico-filosófico, põe em relevo a ideologia do existente, o agarramento à vontade de viver como pressão específica ressentida pelo indivíduo, ordinariamente confundida a uma projeção do princípio de autoconservação individual, mas que, em maneira outra, limita-se a subordinar o viver à vontade mundana, penetrada esta que é pela ação em sua racionalidade moderna como meio de mero prestígio, portanto, embebida no apelo do êxito e identificada à própria busca de fins no mundo.

Sobressai, então, que o tema da pressão da ação como tal, implicando a imposição de fins e objetivos no mundo, constitui o aspecto central da situação psicossociológica dos escritores burgueses engajados em pôr em obra literária romanesca uma visão individualista. Além disso, penetrará em todos os modelos de romance.

Mas não é tudo, Ernst Bloch tira de Schopenhauer que a vontade de viver existe, é verificável, mas não deveria existir, não é verdadeira, no sentido em que, na tradição literária, fala-se de "verdadeira tempestade" ou se reconhece um "verdadeiro amigo" [7]. Quer dizer a vontade de viver não se afirma carregada de densidade afetiva, mas é meramente existente, está aí.

Na prática, a redução da realidade do indivíduo para o objeto inerte somente se viabiliza na medida em que passa pela ideologia do existente.

Desta forma, na pesquisa dos paralelismos entre as estruturas econômicas e as manifestações literárias, constatados no exterior da consciência coletiva, podemos destacar a observação da ideologia do existente sendo diferenciada como tendência substitutiva imbricada no pensamento reduzido às relações de mercado, identificado aos valores de troca.

Contemplando a categoria da mediação como introduzindo em nível implícito uma modificação radical nos termos da oposição infra-estrutura/superestruturas, a teoria psicossociológica põe em relevo a partir do comportamento econômico dos indivíduos uma tendência para substituir o pensamento conformado aos valores de troca.

Ou seja, podemos notar a ideologia do existente sendo diferenciada nessa tendência substitutiva como viabilizando na prática a virtual falsa consciência total, na qual o valor mediador torna-se valor absoluto e o valor mediado desaparece inteiramente.

Como se sabe no estudo do romance ao século XX constatou-se, por um lado, a transformação da unidade estrutural personagem/objetos como levando não somente ao desaparecimento mais ou menos acentuado do personagem, mas, correlativamente, acentuando o reforço da autonomia dos objetos.

Constatação esta que logo faz lembrar a observação de que, com o estabelecimento do capitalismo organizado a partir da segunda metade do século vinte, as estruturas auto-reguladoras da economia de troca levam ao deslocamento progressivo do que, aprofundando no fenômeno da reificação, Lucien Goldmann chamou coeficiente de realidade do indivíduo cuja autonomia e atividade são transpostas para o objeto inerte. Ora, acontece que, se nos aprofundarmos no âmbito das significações práticas, veremos a viabilidade dessa redução da realidade do indivíduo para o objeto inerte como passando impreterivelmente pelo crivo da ideologia do existente [8].

Por contra, será da acessibilidade dos valores humanos, na medida em que incluem o elemento postulativo já mencionado; serão das constatações de suas condições e possibilidades para o indivíduo em face da ideologia do existente, bem como das atitudes do escritor a respeito disto, que a teoria psicossociológica se desenvolverá. Daí o maior interesse sobre os escritores burgueses. Isto não significa minimizar a composição de seus personagens, já que na arte composicional se tece justamente o móvel do escritor romancista, sua aspiração, tanto mais que no romance a ética do autor, sua experiência ambivalente do individualismo, torna-se ou deve se tornar o elemento estético da obra.

Compreende-se desta forma que os escritores e os artistas sejam provenientes de certo número de indivíduos cujo pensamento e conduta permanecem orientados por valores qualitativos sem que, todavia, consigam subtrair-se inteiramente à existência da mediação degradante. Daí sentirem parcialmente o efeito daquela tendência substitutiva para a falsa consciência em sua ligação à qualidade de sua obra.

Na medida em que aprofunda o estudo do móvel do escritor, a teoria psicossociológica assinala a probabilidade de que o gênero romanesco tenha surgido como expressão não só de um descontentamento afetivo não conceituado, mas da subjacente aspiração à mirada direta dos valores qualitativos.

Vale dizer, a acessibilidade dos valores assim em aspiração constitui o princípio de figuração dos personagens, afirmando-se em conseqüência como a referência central do desenvolvimento da forma romanesca. No estudo histórico do romance as modalidades que se diferenciam são detectadas com prioridade em torno da possibilidade e das condições da biografia individual, relevando para segundo plano a importância das crônicas sociais como critério diferencial, as quais complementam a busca biográfica como elemento composicional.

***

Artigo de autoria de Jacob (J.) Lumier

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Forma Romanesca, Reificação, Ideologia do Existente by Jacob (J.) Lumier is licensed under a Creative Commons Reconocimiento-No comercial-Sin obras derivadas 3.0 Estados Unidos License.
Based on a work at www.oei.es.





[1] Ver: "O Tradicional na Modernização" (obra-manuscrito em finalização no meu Google Docs) e o ensaio publicado "Crítica da Cultura e Comunicação Social".

[2] Friedrich Schiller (Johann Christoph), 1759 – 1805.

[3] Ver Goldmann, Lucien: "Recherches Dialectiques", pág.91.

[4] Ver Goldmann, Lucien: "Sociologie du Roman", págs. 33, 35.

[5] Do ponto de vista das estruturas reificacionais sobressai a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual no interior das estruturas econômicas. Ver NOTA COMPLEMENTAR 01 NO FINAL desta Introdução.

[6] Ib, ibidem, págs.83, 84.

[7] Ver "Entrevista com Ernst Bloch", in Lowy,M: "Para uma Sociología de los Intelectuales Revolucionários", pág. 259.

[8] Ver Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs. Ver igualmente NOTA COMPLEMENTAR 01, no final deste tópico.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Crítica Social



Em sentido estrito, a Crítica da Cultura relaciona a Modernização, a literatura e arte de avant-garde – contemplando notadamente expressionismo e surrealismo –, o romance e o individualismo.

Como se sabe, o interesse sociológico na literatura do século XX aprofunda no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação. Daí o domínio conexo entre a estética sociológica e as teorias metapsicológicas, já que à objetivação do humano nas estruturas corresponde o surgimento da subjetividade, a aspiração aos valores que resta em estado de aspiração, uma cultura que não se individualiza.

Daí igualmente a simples subjetividade como pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia, a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogênicos em face da realidade e freqüentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas inconciliáveis para o sentimento de felicidade.

Com efeito, em sociologia a busca da individuação na composição literária de avant-garde deve levar em conta a coisificação não somente como condição da ruptura libertadora, condição negativa, mas como a forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo, como o caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. O modelo da tradição do romance que vem do século XVIII, desde o Iluminismo, tendo por objeto o conflito entre o homem vivo e as petrificadas relações sociais, é uma referência limitada ao nível ideológico e, falta de crítica social, não atende à exigência de justiça poética, não evita colocar os personagens em injustiça pelo não reconhecimento ou pela descaracterização do perfil neurótico desempenhado.

T.W. Adorno acentua a crítica social não só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo), porém equipara a crítica social ao conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

Nesse caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens, uma relação que se esqueceu de si mesma – forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo – a busca da individuação passa pela forma reflexa afirmando a falsa consciência que o homem tem de si mesmo e que é decorrente dos seus fundamentos econômicos. Essa falsa consciência configura por sua vez o homem coisificado não somente como uma realidade crítico-teórica, mas dá-lhe expressão como um homem obnubilado diante de si mesmo.

Daí, finalmente, desse estado patético procede a figura recorrente na literatura de avant-garde do personagem neurótico como afirmação da individuação buscada no contexto da Standardização e da indústria cultural, o personagem com alcance crítico e por isso com valor artístico positivo.

De fato, se a justiça poética é uma noção reflexiva aplicável à utopia negativa como tema configurando o campo da arte e literatura de avant-garde e se tal noção vale para designar o modo pelo qual o autor, como artista, deve observar e aplicar a forma de objetivação na composição dos personagens, sua figuração da ataraxia (ou até mesmo da ancilose, como em “A Metamorfose”, de Kafka), isto é, sua assimilação ou seu distanciamento para com a crítica social (1), então temos que a atitude efetiva assumida em face desse modo composicional ou dessa crítica social leva a distinguir um momento positivo e um momento negativo interpenetrados na utopia negativa. É o que T.W. Adorno nos sugere e suas análises esclarecem.

Portanto, não é só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo) que se compreende a crítica social. Há igualmente como vimos o conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

***
NOTA (1) : Para o humano vivente neste mundo histórico a atitude estóica é inacessível fora da crítica social. A ataraxia não é preferência por um modo de vida alternativo, mas é uma descoberta.

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