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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sociologia, Literatura, Reificação – I

EPÍGRAFE: a configuração da forma romanesca se modifica em função dos graus de transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico.

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O romance corresponde ao desenvolvimento da sociedade burguesa e do mundo capitalista na medida em que põe em obra a história de uma busca, uma aspiração implicando uma biografia individual. Todavia, como se sabe, o imenso progresso da forma romanesca no século XIX constitui um indicativo seguro do fenômeno superestrutural da reificação, notado inclusive no plano da composição, onde a biografia individual nutrida de aspiração enseja a forma romanesca exatamente não só porque deve necessariamente decepcionar, mas porque segrega as razões de sua degradação em crônica social.

Vimos igualmente, do ponto de vista das estruturas reificacionais [1] , que há uma transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte. Isto é, todo um conjunto de elementos fundamentais da vida psíquica desaparece das consciências individuais no setor econômico para delegar suas funções à categoria preço, que aparece como uma propriedade nova e puramente social dos objetos inertes, os quais, por sua vez, passam então a guardar as funções ativas dos homens.

Quer dizer, tudo aquilo que era constituído nas formações sociais pré-capitalistas pelos sentimentos transindividuais de permanência ou de caráter eterno do individualismo, pelas relações com os valores da afetividade que ultrapassam o indivíduo, incluindo o que dá significado à moral, à estética, à caridade, à fé desaparece das consciências individuais no setor econômico e são transpostos aos objetos inertes, que passam a guardar as funções ativas dos homens.

►Daí a compreensão diferencial desenvolvida em teoria psicossociológica de que os modelos de romance com herói problemático individual ou coletivo devem ser situados em uma trajetória para a ausência de sujeito figurada nos romances de avant-garde.

Quer dizer, a configuração da forma romanesca se modifica em função dos graus da transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, de tal sorte que se podem diferenciar três fases desse histórico influindo nas vertentes do romance.

No romance clássico os objetos têm uma importância primordial, mas existem somente por meio do trato que lhe dão os indivíduos, correspondendo à fase da economia liberal se prolongando até o começo do século XX, caracterizada por manter ainda a função essencial do indivíduo na vida econômica (e por extensão na vida social).

Entretanto, essa situação de economia liberal muda na fase dos trustes, monopólios e do capital financeiro, observada no fim do século XIX e, notadamente, no começo do século XX, tornando-se acentuada a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual na interior das estruturas econômicas.

Na fase do capitalismo de organização, observado depois dos anos de 1930 pela intervenção estatal impondo os mecanismos de auto-regulação da economia de produção para o mercado, se constata, em modo correlativo à supressão progressiva da importância essencial do indivíduo, não somente a independência crescente dos objetos inertes, mas a constituição desse mundo de objetos em universo autônomo tendo sua própria estruturação [2].

►Estas observações sobre a transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, como um processo histórico, são constatações indispensáveis para compreender a forma romanesca nos escritores como Balzac, Stendhal, Flaubert, Zola, Malraux, Thomas Mann, Pasternak, etc., estes já no século XX, haja vista que o romance os permitiu colocar em obra ao mesmo tempo o problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário e descrever a essência deste mundo inóspito[3].

Daí porque importa pesquisar o romance como o único gênero literário no qual a ética do romancista – sua atitude a respeito do problema da busca do humano em um mundo que lhe é contrário – torna-se um problema estético da obra.

Quer dizer, uma vez admitido que os valores ideais autênticos encontram-se implícitos no horizonte do romancista, onde permanecem abstratos e constituem o caráter ético, surge o problema de saber como se faz que esses valores venham a se tornar elemento essencial de uma obra artística literária como o romance.

Indagação esta procedente na medida em que as idéias abstratas não têm lugar em uma obra artística literária, onde constituiriam elemento heterogêneo, só podendo ser afirmadas, entretanto, sob o modo de uma ausência não temática, ou presença degradada.

Aliás, essa indagação mostra-se indispensável quando se tem em vista notadamente a situação dos escritores que buscam pôr em obra uma visão individualista com mirada universal, tendo por base o próprio contexto de crise do individualismo, que marca a segunda metade do século XIX e o início do século vinte.

Tendo em conta, ademais, a distinção fundamental entre a obra propriamente literária e os escritos conceituais, como vimos, sobressai que a possibilidade para o escritor fazer obra literária, criar universos imaginários concretos com mirada realista, revela-se estreitamente ligada à certeza de sua aspiração, à fé em valores humanos afirmados como universalmente acessíveis a todos os homens.

►Será a partir dessas preliminares que o tema crítico da ironia se imporá à reflexão que porta sobre a configuração do romance como gênero no qual a ética do escritor torna-se elemento estético da obra.

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[1] Nas estruturas reificacionais de descreve a efetividade para o individualismo do fenômeno do fetichismo da mercadoria, descoberto em sociologia por Karl Marx. Ver NOTA COMPLEMENTAR 01 no final desta Introdução.

[2] Sobre o estatuto dos campos inertes nas análises dos conjuntos práticos é imprescindível refletir sobre o debate de Jean Paul Sartre e Georges Gurvitch. Ver a respeito dessa aproximação do existencialismo e da sociologia meu artigo seguinte: Lumier, Jacob (J.): "A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e o Ceticismo de Sartre: Aspectos de um debate atual do século XX", Internet, E-book PDF, 50 págs, OpenFSM, 2009, link: .

[3] Ver Goldmann, Lucien: "Recherches Dialectiques", pág.91.

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