sábado, 24 de janeiro de 2009

História Social, Heresias Cristãs e Modernização



Neste ensaio situamos a crítica da cultura pela análise do tradicional na modernização desenvolvida por Ernst Bloch nas antípodas de Max Weber.

Comentamos a leitura sociológica do Gótico Tardio na Alemanha pondo em relevo a história social na experiência das insurgências camponesas dos séculos XV e XVI como vinculada à história das heresias cristãs.

Tivemos em conta o interesse deste tema para a desmistificação da cultura de massa e da indústria cultural na atual voga de um romantismo chamado "Gothic", não somente considerado como "gosto do obscuro", mas indevidamente valorizado como "paixão das trevas", que teria nascido de uma visão fantasmagórica da Idade Média atribuída aos românticos como Novalis.

Como se sabe, os simpatizantes do chamado "movimento gothic", que fez a fama de certos grupos do Rock’n’roll, vendo no romantismo do século XIX uma "reabilitação" da Idade Média e do seu imaginário misterioso, nos dirão que os românticos são os responsáveis pelo surgimento da "gothic novel" ou "romam noir", normalmente ambientados em castelos sombrios e ambientes tenebrosos.

Paralelamente ao embelezamento do passado no cultivado "mistério da História", o romantismo literário do século XIX teria um "lado escuro" levando ao pessimismo, à loucura, aos sonhos, sombras, decomposição, queda, atração pelo abismo (trevas) e morte, bem como à urgência pela vida.

Para os simpatizantes do gothic, no "dark side" do romantismo se encontrariam praticamente todos os elementos fantásticos que fascinam a indústria cultural e atingem certas camadas da juventude nos dias de hoje.

Por contra, notando a ilegitimidade em valorizar o "lado escuro" do romantismo, nos agarramos ao ponto de vista de que toda a literatura afirma um horizonte, afirma a criação enlaçada à aspiração, de tal sorte que o Moyen âge do romantismo somente terá valor positivo uma vez integrado na historia da modernização, em especial na contradição não-contemporânea, de que nos fala Ernst Bloch.


Aceder ao ensaio - Lumier, Jacob (J.): "CRÍTICA DA CULTURA E COMUNICAÇÃO SOCIAL", e-book pdf , 70 págs, Web da OEI, Janeiro, 2009

PS- Veja abaixo os subtítulos extraídos do Sumário


OBSERVAÇÕES PARA A CRÍTICA DA CULTURA............................... 5

HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA COLETIVA NA MODERNIZAÇÃO ACELERADA DOS ANOS VINTE:............................................................... 21
Pré-capitalismo e Crítica da Cultura Tradicional do ponto de vista das regiões mais vinculadas ao medievo (Notas sobre Ernst Bloch)............................................................ 21

MILENARISMO E INSURGÊNCIA:.......................................................... 33
Fragmentos para a Leitura de Ernst Bloch..................................................................... 33

O TRADICIONAL NA MODERNIZAÇÃO............................................. 55
Fragmentos para a Leitura de Ernst Bloch-II................................................................. 55
O realismo Estético, a análise das insurgências camponesas dos séculos XV e XVI e o elemento postulativo histórico-filosófico em obra: descobrindo o gótico tardio no milenarismo............................................................................................................................ 59
A Marcha do Gótico Tardio, a Renascença e a História das Heresias........................ 64

NOTAS COMPLEMENTARES..................................................................................... 68

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Negritude e Iluminismo - II: A Democracia Aberta ou: Significado de Obama na Casa Branca.


A celebração da posse do novo presidente dos EUA de que nos fala a mídia tornou claro que as relações entre brancos e negros no Ocidente é uma questão de estratificação, uma desigualdade social, e nada tem a ver com qualquer ideológia de relação entre raças.

A ascenção do presidente Obama representa um triunfo da Democracia em sua capacidade política de fazer com que ninguém seja excluído.

Já observamos em postagem de Maio 2008 (ver Negritude e Iluminismo: Leopold Sédar Senghor) que acima de qualquer particularidade regional, de regime ou de país, o gênio helênico da antiguidade clássica imortalizou na Odisséia a presença histórica muito antiga dos povos negros na origem do Ocidente.

Logo no início do relato épico, os Etíopes estão contemplados entre os preferidos dos Deuses. Visitados pelo próprio irmão de Zeus, Poseidon, que os menciona expressamente.

Aliás, foi essa ausência de Poseidon afastando-se do Olimpo para estar com os povos negros que deu ensejo à intervenção de Atenéa promovendo a libertação de Odisseo e levando a epopéia até o fim.

Portanto, a presença dos negros na poética do gênio ocidental não é pouca coisa, não é simples menção “en passant”, mas compõe o destino épico.

Enfim, cabe sublinhar que a Odisséia tornou-se fonte para os modelos de civilização nas sociedades históricas devido justamente à figuração primeira da idéia de sociedade política.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Crítica Social



Em sentido estrito, a Crítica da Cultura relaciona a Modernização, a literatura e arte de avant-garde – contemplando notadamente expressionismo e surrealismo –, o romance e o individualismo.

Como se sabe, o interesse sociológico na literatura do século XX aprofunda no individualismo para focar-se na própria individuation burguesa, na possibilidade mesma do que constitui ou diferencia um indivíduo de outro indivíduo em contexto de alienação. Daí o domínio conexo entre a estética sociológica e as teorias metapsicológicas, já que à objetivação do humano nas estruturas corresponde o surgimento da subjetividade, a aspiração aos valores que resta em estado de aspiração, uma cultura que não se individualiza.

Daí igualmente a simples subjetividade como pensamento letargado, perplexo, chegando à ataraxia, a qual não deve ser confundida às alienações mentais subjetivas, esquizofrenias ou delírios patogênicos em face da realidade e freqüentemente provocados no envolvimento do indivíduo em alternativas inconciliáveis para o sentimento de felicidade.

Com efeito, em sociologia a busca da individuação na composição literária de avant-garde deve levar em conta a coisificação não somente como condição da ruptura libertadora, condição negativa, mas como a forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo, como o caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens. O modelo da tradição do romance que vem do século XVIII, desde o Iluminismo, tendo por objeto o conflito entre o homem vivo e as petrificadas relações sociais, é uma referência limitada ao nível ideológico e, falta de crítica social, não atende à exigência de justiça poética, não evita colocar os personagens em injustiça pelo não reconhecimento ou pela descaracterização do perfil neurótico desempenhado.

T.W. Adorno acentua a crítica social não só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo), porém equipara a crítica social ao conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

Nesse caráter de mercadoria assumido pela relação entre os homens, uma relação que se esqueceu de si mesma – forma positiva que torna objetivo o trauma subjetivo – a busca da individuação passa pela forma reflexa afirmando a falsa consciência que o homem tem de si mesmo e que é decorrente dos seus fundamentos econômicos. Essa falsa consciência configura por sua vez o homem coisificado não somente como uma realidade crítico-teórica, mas dá-lhe expressão como um homem obnubilado diante de si mesmo.

Daí, finalmente, desse estado patético procede a figura recorrente na literatura de avant-garde do personagem neurótico como afirmação da individuação buscada no contexto da Standardização e da indústria cultural, o personagem com alcance crítico e por isso com valor artístico positivo.

De fato, se a justiça poética é uma noção reflexiva aplicável à utopia negativa como tema configurando o campo da arte e literatura de avant-garde e se tal noção vale para designar o modo pelo qual o autor, como artista, deve observar e aplicar a forma de objetivação na composição dos personagens, sua figuração da ataraxia (ou até mesmo da ancilose, como em “A Metamorfose”, de Kafka), isto é, sua assimilação ou seu distanciamento para com a crítica social (1), então temos que a atitude efetiva assumida em face desse modo composicional ou dessa crítica social leva a distinguir um momento positivo e um momento negativo interpenetrados na utopia negativa. É o que T.W. Adorno nos sugere e suas análises esclarecem.

Portanto, não é só como ponto de vista aproximadamente freudiano sobre a busca da individuação (objetivação do trauma subjetivo) que se compreende a crítica social. Há igualmente como vimos o conhecimento de que a promessa humanista da civilização afirma o humano como incluindo em si juntamente com a contradição da coisificação também a coisificação mesma.

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NOTA (1) : Para o humano vivente neste mundo histórico a atitude estóica é inacessível fora da crítica social. A ataraxia não é preferência por um modo de vida alternativo, mas é uma descoberta.

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