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sexta-feira, 25 de julho de 2008

MICROSSOCIOLOGIA, CONHECIMENTO E LITERATURA.



Sem dúvida, a orientação do realismo relativista sociológico contrário ao “culturalismo abstrato” inspirado em Max Weber, que ronda a análise sociológica genética das estruturas de sociedades históricas, não exclui a confrontação dos sistemas de conhecimento com as sociedades globais.

Pelo contrário, tida um cotejo imprescindível para que tenha relevo (a) - o estudo das relações entre os grupos particulares e o saber, (b) - o estudo das manifestações da sociabilidade como quadros sociais do conhecimento – a “microssociologia” do conhecimento, segundo a classificação de Gurvitch .

Na orientação do realismo relativista sociológico, tem-se a compreensão epistemológica de que “a totalidade, ou melhor, a totalização”, como formação da preeminência do todo (complexo de significações), como formação social se manifesta igualmente em escala microssociológica nos diferentes Nós, tanto quanto “nos grupos, nas classes e nas sociedades”, a par de manifestar-se nos “Eu” participantes.

Como se sabe, cada ‘Euparticipa inevitavelmente dos conjuntos sociais mais diversos que lhe dão aos seus membros os critérios para chegar a uma integração relativa e variada das tendências contrárias ou complementares próprias de toda a pessoa humana e que esta participação corresponde ao problema do ”homem total”, tão diferentemente interpretado por MARX – que o projeta para o porvir – e por MAUSS – que o rechaça para o passado mais longínquo, o das sociedades arcaicas.

Esta constatação dos âmbitos da totalização torna imprescindível a microssociologia do conhecimento, havendo uma dialética complexa entre esta última, o âmbito parcial e o global: ou seja, “as manifestações da sociabilidade, os grupos, as classes sociais, mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras”.

Assim, as manifestações da sociabilidade como fenômenos de mudança social, se encontram “em diferentes graus de atualidade e virtualidade para combaterem-se, complementarem-se ou combinarem-se em cada unidade coletiva real”; são “os fenômenos sociais totais de caráter flutuante ou instável, freqüentemente espontâneos ou anestruturais”, mas que são “utilizados” pelos grupos em seus processus de estruturação”.

Quer dizer, tais manifestações compreendem a Massa, a Comunidade, a Comunhão: “os três graus de fusão ou participação nos diferentes e internamente diferenciados Nós, fusão esta que “não é somente a tomada de consciência da unidade relativa do Nós, mas é também “a de todo um mundo de significados”, sendo nesta tomada de consciência afirmado o grupo em formação. Aliás, Gurvitch assinala que o mundo de significados acessível à consciência por meio dos Nós seria inacessível de outra maneira, já que, do ponto de vista sociológico, as “relações com outrem” só alcançam as significações que reconduzem aos horizontes limitados de ‘sócios’ e reproduzem os juízos, as idéias, os símbolos do Nós em que têm sede e, por meio deste, os de um grupo, uma classe social, ou uma sociedade.

Essa compreensão do interesse estrutural da microssociologia do conhecimento torna-se mais relevante se tivermos em conta que a sociologia da literatura pode “servir de intermediária” entre a sociologia do conhecimento e a sociologia da arte e que a manifestação da comunidade ou da massa tem aí um importante papel.

Com efeito, apesar de seu dogmatismo notado por Goldmann, Georges Lukacs não pode evitar notar, ao estudar o romance histórico [‘Le Roman Historique’, tradução Robert Sailley, prefácio C-E. Magny, Paris, Payot, 1972, 407 pp. -1ªedição em Alemão: Berlim, Aufbau, 1956 - ver pp.261sq], que o atrativo dos assuntos históricos para Walter Scott foi o reconhecimento do fato que os problemas cuja importância na sociedade contemporânea ele observou, operaram no passado sob uma forma diferente, específica e que, por conseqüência, a história, como ‘pré-história objetiva do presente’, é alguma coisa que não é estranha ou incompreensível ao espírito humano.

Quer dizer, podemos notar na estética do romance um conhecimento filosófico como totalização no pensamento de uma experiência particular levando à representação de um juízo de valor positivo sobre o saber.

Mas não é tudo. Em outras passagens, se nota a manifestação da sociabilidade da massa na estética do drama, cujo caráter público assenta na ligação entre o homem e o povo: “o drama (o teatro) trata de destinos humanos, não há mesmo algum outro gênero literário que se concentre tão exclusivamente sobre os destinos dos seres humanos, em particular sobre os que resultam das relações antagônicas dos homens entre eles e somente destas, sobre as quais o drama coloca exclusivamente o acento. Por isso, os destinos humanos são concebidos e representados de uma maneira tão particular. Tais, eles dão uma expressão direta aos destinos gerais, os destinos de nações inteiras, de classes inteiras, até mesmo de épocas inteiras. A alta generalização da importância dos seres humanos é ligada inseparavelmente ao efeito direto sobre a massa”.

Segundo Lukacs, Goethe teria formulado essa relação com bastante precisão nos seguintes termos: “... para ser exa-to, nada é mais teatral do que aquilo que aparece ao mesmo tempo simbólico: uma ação importante que indica uma outra ainda mais importante”.

Nota-se, portanto, a insistência sobre a sociabilidade da massa como quadro social ou “tempo simbólico” do drama. O próprio drama é entendido como figuração de um conhecimento político, como o é aquele das “relações antagônicas dos homens entre eles”, acentuando ainda o caráter simbólico e racional desse conhecimento – por seu “efeito direto sobre a massa” (caráter simbólico) ao “relacionar os destinos humanos e o destino geral” da comunidade da nação (caráter racional).

Seja como for, do ponto de vista do realismo relativista sociológico tal como se desenvolve em Gurvitch podemos dizer que basta chegar à aceitação da existência de conhecimentos coletivos para que se transponha o umbral da sociologia do conhecimento – sem qualquer exigência de esoterismo intelectual para adentrar à disciplina, embora como já o notamos, haja obstáculos a ultrapassar para chegar ao umbral da mesma.

Tal simples aceitação daquela existência coletiva que aí está, na marcha dos temas coletivos reais, nos coloca imediatamente diante do fato do conhecimento com eficácia, em correlações funcionais, logo, traz a descoberta dos quadros sociais como intermediários entre os atos humanos e as obras de civilização ou, de modo especial, os quadros sociais como sedes da vinculação entre os conhecimentos e a mentalidade coletiva que lhes serve de base.

Simplificando, poderíamos até dizer que, desses quadros sociais, cada um de nós participa e todos Nós participamos à medida que tomamos consciência do “Eu” participante, pois exercendo a reflexão mediante o diálogo e o debate em torno dos temas coletivos reais já atualisamos de modo especial uma mentalidade coletiva, já nos encontramos em busca de colocar o conhecimento em perspectiva sociológica, já nos defrontámos com a questão do acordo ou desacordo do saber e do quadro social.

Artigo-postagem elaborado por Jacob (J.) Lumier

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