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quarta-feira, 23 de abril de 2008

O TEMA DO IMPACTO DA CIBERNÉTICA NA SOCIEDADE: Da especialização e do automatismo ao animal abstrato.


Sobre o tema do impacto da ciência e da tecnologia na sociedade cabe notar a análise crítico-filosófica pioneira desenvolvida por Henri LEFÉBVRE a respeito do automatismo em seu livro dos anos de 1960, intitulado “Metafilosofia” (cf. LEFÉBVRE, 1967, capítulo 5: “Mimesis e Praxis”, pp.246 a 264)i , na qual esse autor, pressentindo a trilha de uma sociologia do conhecimento filosófico, examina a aproximação da filosofia existencial e fenomenológica de HEIDEGGER com a teoria social.

LEFÉBVRE dá livre curso a uma reflexão com base sociológica em torno ao problema da relação entre a lógica e a dialética como complexo de cultura na sociedade industrial. Por um lado, toma essa relação como se resolvendo na praxis e levando à superação da “teoria do conhecimento” legada do século XVIII (projeção da concepção de um EU genérico, idêntico em todos tirado de Rousseau e de Kant). Por outro lado, desenvolve o que chamou “teoria geral das estabilidades” (ib.pp.254sq) para apreciar neste quadro a proposição heideggeriana sobre a ciência, incluindo a Cibernética, entendida esta por sua vez como “teoria do real” e “teoria da praxis operativa” (praxeologia), configurando uma proposição de constatação do desenvolvimento do mundo da produção.

Em outras palavras, toma-se a ciência moderna e seus gigantescos dispositivos técnicos planetários como “realização teórica”. Podemos ver um proceder que: (a) - relaciona a praxeologia tomada como constatação do desenvolvimento com a situação de que, nas sociedades dividas em classes, as representações ou manifestações da vida mental -- conceituações, simbolizações, projeções -- sofrem os efeitos de uma causalidade singular designada “lei tendencial da polarização”, que as aproxima ou as afasta do conteúdo (real) (ib.p.259); (b) - busca com essa aplicação sociológica explicar a ocorrência da constatada “realização teórica”, na qual (b1) - pelo imperativo de coerência do processo de realização, se inscreve, portanto, a supressão da cisão entre a representação e o real, supressão esta que, no plano da filosofia, atinge a própria (antiga) “Teoria do Conhecimento” (notadamente, as correntes intelectuais do neokantismo), já que (b2)-aquela cisão agora suprimida, mas afirmada nesse suprimir-se como aspecto da separação entre ser e conhecer, era posta no pensamento filosófico pelo “entendimento analítico”, não sendo do âmbito da “razão dialética”. Desse modo, verifica-se, então, no momento lógico-filosófico subseqüente, como efeito da observada “lei tendencial da polarização" de tal modo aplicada, uma configuração particular em que as representações e a praxis reduzem o conteúdo, reduzem a vida humana (real) a uma vida abstrata (cf.ib.pp.259/260).

Para LEFÉBVRE, citando o “jovem” Marx e referindo Hegel, à tal configuração particular redutiva deve ser associada por sua vez a especialização, compreendendo nela e por meio dela a abstração e a cisão da atividade (não chega ao reconhecimento de si), que o homem toma por realidade e por coisa em que absorver sua consciência, em “uma somente aparente realização de si mesmo”.

Neste ponto, com base na dicotomia sociológica do nível organizado de realidade social por um lado, e por outro lado do fluxo espontâneo da vida coletiva, desdobra-se o argumento do autômato, seguinte: (a)-ao se limitar pelo gosto da especialização na cisão da atividade, o homem (Faber) se situa ele próprio no “reino animal do espírito”, ao qual igualmente se restringe -- noção esta tirada de “A Fenomenologia do Espíritoii surge, então, a figura do “animal abstrato”, designando o homem como animal sem vida espontânea, privado dos impulsos vitais característicos; (c)-figura esta cujo surgimento corresponde na leitura da obra de MARX a um paralelo com a teoria do “objeto abstrato”, compreendendo a mercadoria e o dinheiro, “que alienam e reificam a atividade cindida”, (d)-sendo que LEFÉBVRE entrevê nessa teoria, por sua vez, a fórmula privilegiada da própria teoria da realização teórica, tida esta inicialmente como originalidade da proposição heideggeriana, mas que, por via do paralelo assinalado, vem a ter sua verdadeira fonte revelada.

Entretanto, ao contrário do que poderia parecer, com o autômato assim surgido e figurado na realização teórica, o conhecimento não fica, todavia sem fundamento. É que o objeto técnico lhe assegura a objetividade. Quer dizer: o conhecimento realiza-se no âmbito da prática como a praxis técnica. Então, o problema de restabelecer o laço entre o sujeito e o objeto desaparece, “porque se resolve na prática científica, onde, por sua vez, cresce de importância a noção metodológica de ‘simulação’.

Daí o autômato assume o conhecer (a ciência) como realização teórica. Suprime ao seu modo a cisão entre objeto e sujeito, entre o conhecer e o ser, entre o real e a representação. Tornado ato prático e realidade, o conhecimento não exige mais uma teoria distinta (filosófica ou neo-kantiana). O autômato (“robot” como complexo de significações) tende a captar e a incorporar a si mesmo a totalidade do conhecer e das representações, liberando assim o ser humano de sua parte objetiva, permitindo-lhe, no entanto, apoiar-se nessa consolidação.

Paródia fascinante do homem realizado, no dizer de LEFÉBVRE, o grande autômato, a ciência moderna e seus gigantescos dispositivos técnicos planetários, o animal abstrato em sua compreensão total e sua plena extensão, é o simulacro quase perfeito da totalidade apreendida, vivida, reconstruída: é realidade e aparência unificadas (ib.p.263).

LEFÉBVRE formula então a indagação crítica final em face da Cibernética como o grande autômato: “não será ao mesmo tempo, em plena simultaneidade sincronizada, a realização e a alienação?” Admitindo, em seguida, que essa indagação é o que permite a alguns dizer que o autômato as concilia, logo as suprime uma e outra como oposição e problema; e aos outros, essa indagação permite afirmar que o autômato leva o conflito ao paroxismo, e anuncia a grande superação.


NOTAS

i LEFÉBVRE, Henri : « Metafilosofia : Prolegômenos », Tradução e Introdução Rolando Corbusier, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1967, 399 pp. (1ªedição Em Francês : Paris, Ed. De Minuit, 1965).

ii HEGEL, G.W.F.: “La Phénoménologie de l´Espirit” – Tome I e Tome II, Paris, Aubier, 1939 (Tome I), 358 pp.; 1947 (Tome II), 359 pp.; Versão francesa por Jean Hyppolite tirada da Edição Lasson – J. Hoffmeister, W. II, 4º ed., 1937; título em Alemão: “Die Fhaenomenologie des Geistes”.Ver vol. I p.324; apud LEFÉBVRE, H: op.cit. p.260.

Da especialização e do automatismo ao animal abstrato.

Fragmento extraído do eBook

Leitura da Teoria de Comunicação Social desde o ponto de vista da Sociologia do Conhecimento
por
Jacob (J.) Lumier

Websitio Produção Leituras do Século XX – PLSV: Literatura Digital



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Rio de Janeiro, Setembro 2007

©2007 by Jacob (J.) Lumier

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